O MATRIMÔNIO, SACRAMENTO DO AMOR DIVINO

Matrimônio de Joaquim e Ana (Centro Aletti)

“Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27), declara a primeira narração da criação do ser humano. Já o segundo relato inclui a teologia do diálogo e do amor: “Então o Senhor Deus formou o ser humano com o pó do solo, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e ele tornou-se um ser vivente” (Gn 2, 7). Continua a Sagrada Escritura dizendo que Deus apresentou ao homem todas as coisas, para que lhes desse um nome, mas nada deixava o homem satisfeito. Recebia o poder sobre todos os seres viventes, as plantas, as riquezas naturais, mas o homem não manifestava alegria. Então Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda. … Depois, da costela tirada do homem, o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. E o homem exclamou: Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne de minha carne. … Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne” (cf. Gn 2, 4-25).

A raiz da insatisfação original do homem está em sua própria constituição: Deus fez o homem para o diálogo, para o relacionamento que o faz existir. Deus-comunhão criando o homem à sua imagem e semelhança criou-o como homem-comunhão. Deus-amor soprou no homem o hálito do amor. E, deste modo, somente quando defrontou-se com a mulher, também ela mulher-comunhão, saltou de alegria: era carne de sua carne, osso de seus ossos.

Se o ser humano se satisfizesse com uma vida solitária centrada nos bens, estaria tomado de uma grave doença, o amor de si mesmo (philautía), que o impediria de realizar-se como pessoa. Todo indivíduo cuja vida é cuidar de bens materiais e para eles viver não é capaz do amor, porque não chega ao nível de pessoa que se dá somente no amor, na comunhão entre iguais.

O amor do casal é participação do amor divino

E foi num jardim que Deus assistiu ao primeiro casamento. Quando os noivos, hoje, entram numa igreja repleta de arranjos florais, estão revivendo o clima paradisíaco do primeiro casal. E o mesmo Deus que criou o primeiro casal lhes dará a mesma bênção do amor e da comunhão.

A bênção divina torna o amor do casal participação do amor divino. Toda a comunidade eleva a Deus a oração: “Ó Deus, uni este homem e esta mulher em matrimônio, para que sejam um sinal do vosso amor” (Rito do Matrimônio). Após o consentimento, a bênção dada aos noivos, lhes dá uma dupla responsabilidade: “Ó Deus que, para revelar vosso plano de amor, quisestes prenunciar no amor do esposo e da esposa a aliança que contraístes com o vosso povo, assim, no matrimônio dos vossos fiéis, elevado à plenitude do sacramento, resplandece o mistério nupcial do Cristo e da Igreja” (Rito do Matrimônio – Bênção Nupcial).

A Liturgia sacramental do Matrimônio revela a dupla finalidade da união sacramental: testemunhar a aliança de Deus com seu povo, testemunhar a aliança de Cristo com sua Igreja.

O que é um sacramento? É um sinal da vida da graça colocado diante do mundo. Um sinal indicativo de uma realidade divina apresentada pelo ser humano. Algumas definições de sacramento são tão pobres que quase o reduzem à realidade jurídica. Um exemplo: “os sacramentos são sinais sensíveis da graça e são sete”. E surge toda a explicação da matéria e forma, do número sete, redução essa muito recente na história da Igreja. Com essa definição quer-se afirmar, talvez, que o sacramento é para a pessoa que o recebe. É isso, mas é muito mais: a pessoa que o recebe assume o compromisso de testemunhá-lo perante o mundo. Ele nos confere o privilégio de sermos sacramentos.

Desse modo, o casal de noivos recebe a Bênção para que, com sua vida, mostre ao mundo como o Pai nos ama e como Cristo ama a sua Igreja. A vida de um casal cristão torna-se catequese do amor divino: ao ver o amor de um casal, amor não destruído nem nos maiores sofrimentos, podemos dizer: “Assim Deus nos ama”, “Assim Cristo ama sua Igreja”. Por maior que seja nossa fragilidade, o amor divino permanece o mesmo, assim como permanece firme o amor matrimonial.

O amor conjugal é imagem do amor de Cristo pela Igreja

São Paulo coloca o fundamento teológico e cristológico do matrimônio: “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres o sejam aos maridos, como ao Senhor. Pois o marido é a cabeça da mulher, como Cristo também é a cabeça da Igreja, seu Corpo, do qual ele é o Salvador. Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo também amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5, 21-23.25). A união matrimonial é colocada como sinal do amor de Cristo, que deu a vida pela Igreja, e o amor de Cristo pela Igreja é sinal do amor matrimonial.

No amor não há lugar para dominação, exploração, egoísmo, engano. No amor a autoridade é sempre serviço, pois é exercida no Espírito Santo.

Quando o Espírito Santo quis oferecer ao mundo a prova mais sensível do amor de Deus pelo seu povo, inspirou o autor sagrado a apresentar os cantos matrimoniais, os cantos do amor do homem e da mulher. Assim, o Cântico dos Cânticos, história de amor humano, torna-se história revelada do amor divino.

Esse é o sacramento do Matrimônio: vivência íntima de amor do homem e da mulher e sinal visível do amor de Deus por nós e de Cristo pela Igreja.

A Liturgia da Igreja oriental expressa esse amor com um sinal diverso: ao invés do consentimento dos noivos e da invocação da bênção, pela epíclese (invocação do Espírito Santo) o casal é mergulhado no amor da Santíssima Trindade e dentro dessa fornalha de amor o Deus Uno e Trino diviniza o amor humano  e humaniza o amor divino. Por três vezes o sacerdote repete: “Deus , Nosso Senhor, com Tua graça e glória eu os caso”.

São Liturgias diferentes que realizam a mesma realidade da unidade conjugal. Unidade tão bela que o sacramento do matrimônio só se completa no momento da união sexual, quando os dois se tornam uma só carne. Antes dessa entrega profunda do homem à mulher e da mulher ao homem não há sacramento, porque a união ainda não foi perfeita. O prazer gerado pela união carnal é prazer de comunhão: a unidade abençoada é comunhão de vida, é comunhão com Deus. Fora da comunhão, a união dos corpos é apenas união dos corpos, símbolo do egoísmo que mascara a instrumentalização descomprometida da pessoa sob a fala aparência de amor. Deus quer que o amor conjugal seja sinal do amor divino.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por nathalia em 7 de agosto de 2010 - 19:27

    Sou casada há 18 anos e hoje espero em Deus a conversão do meu esposo. Já sofri muito, mas sinto a mão de Deus em minha vida. Por esperar, descanso em Deus e aguardo a resposta do Pai. Tive um casamento de tribulações e entreguei a Deus e ele está agindo. Hoje já posso dizer: Obrigado Senhor!

  2. #2 por Mario Geiser em 14 de março de 2011 - 22:30

    Por pensar com semelhança, que você, fez exposição do matrimônio e do ser humano, hoje em dia niguém pensa que cada ser humano é um ser divino, que deviamos ter um grande respeito um com outro. Que o matrimônio seria a maior fusão entre dois seres humanos divinos, por se tornarem uma só pessoa por intermédio do ato sexual, onde é gerado outro ser, que devia ter pais divinos para ter uma educação divina. Mas padre, quando vejo que as pessoas não tem mais de ter cuidado consigo mesmo, como podemos ver essa pessoa ter bagagem para constituir uma familia, que devíamos chamar de familia divina. Fico muito feliz por ter o senhor expressado essas palavras com grande sabedoria.
    Mario Geiser, Piçarras – SC.

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