ANO SACERDOTAL E TRANSFIGURAÇÃO

“O Senhor não é um imenso papagaio vermelho na praça” (S. Kirkegaard – 1813-1855). A afirmação do filósofo e teólogo dinamarquês torna-se estranhamente atual quando se fala em religiões de prosperidade, pregadores de sucesso, marketing da fé lidando com estatísticas e não com convertidos. Estatísticas que oferecem o consolo para o sucesso, aumento do rebanho, retomada de trânsfugas.

A Igreja católica não está imune à tentação de busca de sucesso. Nós, padres, também não estamos imunes. Numa sociedade que valoriza o sucesso, as multidões reunidas, o “acontecer” nos meios de comunicação, essa tentação é forte e até fatal. Teremos a posse do ter, a posse da fama, o poder nos será delegado pelas instâncias eclesiásticas com o argumento que seguramos o rebanho e, talvez não por último, mas pela lógica, a posse do prazer. Buscando anunciar o Senhor, ingenuamente caímos nas tentações que ele rechaçou no deserto. Talvez os males que hoje fazem a Igreja sofrer, as fraquezas em que alguns de nós, padres, mergulhamos, encontre a raiz nesse engano de sedução no mercado do sucesso fácil. E, ainda mais, a raiz pode estar no esquecimento da missão de sermos ministros de Cristo, ministros do Senhor crucificado, que dá a vida e não confundindo Jesus com um imenso papagaio vermelho na praça. O campo de ação de Jesus é a interioridade disponibilizada e não a exterioridade evasiva. O Ressuscitado que envia o Espírito Santo continua a ser o Senhor da Humildade batendo à porta com a Cruz às costas.

“Não as pompas, os sinos, os natais-troca-de-presentes, tranqüilidade, esplendor, brilho e sim, cruz verdadeira, enorme, pútrida, indiferente, suja, nojenta. Isso é o Cristianismo”, define o intelectual romeno, batizado na prisão e depois monge, Nicu Steinhardt (cf. O Diário da Felicidade, p. 82). O discípulo-missionário reproduz plasticamente os intestinos quase à vista do Senhor chutado, coroado de espinhos, o suor, sangue, escárnio, pregos: não há cristianismo sem Cruz, ela sim, Trono de Glória a serviço de novos céus e nova terra.

Nossa legitimidade nunca será o apoio dos bem-de-vida, dos intelectuais, dos poderosos, pois isso já tivemos, e até de sobra. Nossa legitimidade é dada pelos pobres, encarcerados, pecadores, doentes – cruz pútrida, suja, nojenta – eles os destinatários do Reino. E estão nas praças incomodando, perturbando nosso sossego. Quando o amor cristão os atrai, somos verdadeiros ministros, como na parábola do algodão: se estiver branco, macio, não teve utilidade; se estiver sujo, cheio de pus, foi algodão verdadeiro.

Sem o oxigênio dado pelos carregadores da cruz fabricada pelo mundo do consumo, teremos pouca energia para o apostolado e pouca força para vencermos as tentações que cruzam nossa estrada apostólica, tirando de nós aquilo que é nossa glória: o amor dos pobres e pequeninos.

Dois homens de nosso tempo, dois sacerdotes de imensa estatura de santidade pastoral podem nos dar uma palavra: João Paulo II (1920-2005) e o Cardeal Nguyên Van Thuân (1928-2002). Provaram toda a alegria de servir ao Senhor e beberam do cálice da cruz.

“Recordo-me que, quando era jovem e lia o Evangelho, para mim o argumento mais forte da veracidade daquilo que estava lendo era que no Evangelho não existe nenhuma promessa secreta. Ele disse aos discípulos uma verdade absolutamente dura: não esperar nada, nenhum reino deste mundo, nenhum posto à direita ou à esquerda nos ministérios desse futuro messiânico. O rei messiânico andará sobre a cruz e lá será provado. Depois a ressurreição vos dará a força para tornar-vos capazes de testemunhar ao mundo esse Crucificado. … O mundo faz o contrário: quer atrair com promessas, com carreira, com ganhos” (João Paulo II, 10 de junho de 1987, a um grupo de jovens).

E o Cardeal Van Thuân: “O que mais me atraiu em Jesus foram seus defeitos: pouca memória (perdoa e logo esquece os pecados), mau matemático (deixa 99 ovelhas para buscar uma), mau candidato (promete a seus seguidores cruzes, problemas), mau economista (paga o mesmo a quem trabalha uma ou oito horas)”, e assim por diante. “Por que esses defeitos? – Porque ama sem medida!”.

Nós padres, cada um de nós, em nossa história se deparou com esses homens e mulheres que foram seduzidos por Cristo e o seguiram por amor. E, sem dúvida, nossa vida também é resultado do fascínio por aquele que ama sem medida, o Senhor.

É a hora de nossa transfiguração, de nosso Tabor: somos carne fragilizada, somos pecado, mas brilha em nossa face o Senhor que nos fez seus sacerdotes. Transfiguração que torna verdadeiro o título amoroso de Alter Christus – Outro Cristo. Não será o medo de punições eclesiásticas e civis o motor de nossa conversão, de nossa alegria ministerial. As punições têm efeito rápido e o demônio que nos assaltou voltará como legião. Somente o amor de Jesus nos transfigura e faz de nosso ministério caminho de transfiguração do rebanho. “Somente Cristo acalma a tempestade e renova a força e a coragem para viver uma vida santa, na plena fidelidade ao ministério, à consagração a Deus e ao testemunho cristão” (Bento XVI).

Não somos papagaios vermelhos nas praças, em busca de aplausos. Nossa força brotará da intimidade com a pequenez assumida por Deus: “Ó Imenso! Ocupas somente uma minúscula cela e gostas de lugares vazios e solitários” (K. Wojtyla, Canto do Deus escondido). E diante de nós continua a figura sacerdotal frágil e poderosa do Santo Cura d’Ars a nos repetir: “O sacerdote é o amor do Coração de Jesus”.

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