A ASCENSÃO AOS CÉUS, EXALTAÇÃO DO HOMEM E DO MUNDO

Ascensão do Senhor – Cristo Sol, Centro do céu e Céu humano – Duda Gracz

Com sua ascensão aos céus, o Cristo ressuscitado completa a missão salvadora do mundo e do ser humano, agora continuada no Espírito Santo. O hino que Paulo escreveu aos Filipenses (2,6-12), síntese inspirada do mistério da Encarnação, dela revela os acontecimentos centrais: Cristo existia em forma

divina (Deus eterno com o Pai e o Espírito), despojou-se da condição divina (Encarnação no ventre de Maria), tornando-se semelhante ao ser humano (Belém e Nazaré), humilhou-se até a morte de cruz (Paixão e Morte); Deus o exaltou (Páscoa da Ressurreição) e em seu Nome se dobra todo joelho no céu, na terra e debaixo da terra (Ascensão gloriosa) e toda língua confesse Jesus Cristo é o Senhor (Cristo Salvador na glória do Deus Uno e Trino). O Senhor, que desceu e viveu nossa vida terrena para narrar-nos o amor de Deus Pai, é o Senhor glorioso que sobe aos céus (Lc 24,46-53; At 1,1-11).

No dia do Natal, na singela noite de Belém, os anjos anunciaram aos pastores que Deus se uniu à humanidade e, no dia da Ascensão, em Jerusalém, o anjos anunciam que a nossa humanidade se uniu à divindade: Cristo não abandonou a condição humana, mas a glorificou e uniu-a à glória da Trindade. Conserva em seu corpo glorioso as marcas das chagas nascidas de seu amor e provocadas pelo ódio do pecado. Em Deus as chagas recordam para sempre o nosso valor e vocação: sermos sua imagem e semelhança.

No amor trinitário foram rompidos os muros que separam o homem da mulher, os povos, as classes sociais, o homem e a criação. Tudo agora é renovado pelo Espírito, o grande dom da Ascensão do Senhor.

Somos divinizados nesse feliz mistério, pois Cristo não levou para o seio da Trindade uma natureza humana, mas a natureza humana total: unidos a ele, todos nós participamos da divindade. Ele é o Pontífice (o construtor da ponte) que traz Deus ao mundo e leva o mundo a Deus.

Por terem consciência disso através do Espírito, os Apóstolos retornam felizes à cidade e anunciam que o mundo foi salvo, que todos nós fomos salvos. Mas, o pecado continua a existir e significa negar a ressurreição, opor-se à vida divina. Toda a criação geme em dores de parto: ou livremente gera filhos de Deus, ou livremente gera filhos da perdição. Não é mais destino, nem condenação: é escolha livre de quem pode ser filho ou optar pela escravidão.

No Espírito Santo, a revelação de nossa glória no Senhor

Com sua Ascensão gloriosa aos céus, Cristo tornou-se invisível aos olhos humanos. Os Apóstolos continuam a olhar para o céu, desejando continuar a fruir da felicidade de contemplar o Senhor. Os anjos ordenam que não o procurem nas nuvens, não querendo com isso dizer que os discípulos gostariam de fugir de suas responsabilidades. A ordem dos anjos significa: daqui para frente vocês viverão do Espírito Santo e encontrarão o Senhor na Palavra, no Batismo e na Eucaristia, na Igreja, nos Sacramentos, em todo o ser humano, na beleza da criação, na imundície que deve ser lavada, santificada e salva. O Senhor está na beleza sempre bela de Deus e está na beleza de tudo e de todos que salva no amor: a missão de vocês é revelá-lo. Cristo nos revela a face divinizada dos homens e mulheres que brotam nas periferias, nos esconderijos do sofrimento.

O Espírito Santo nos dá a graça de sermos artistas para recuperar todas as deformações do pecado, recuperar a semelhança divina nas pessoas vítimas de nosso egoísmo. Todo aquele que proclama o Senhorio de Jesus se faz atelier onde tudo é restaurado na beleza original. Cada mão nossa tem o instrumento necessário: uma, a Palavra e a Eucaristia, outra, o amor misericordioso.

A Liturgia reza que a “ascensão do Filho já é nossa vitória, pois fomos chamados a participar da sua glória”. Elevado aos céus,envia-nos continuamente o Espírito da Verdade, do Amor, da Alegria, da Consolação. E a comunidade cristã, consciente de suas limitações, não cessa de invocar: “Enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra”. Tudo é e será criado e renovado, mas com a nossa colaboração. Não busquemos milagres nas alturas, pois poderiam fazer-nos preguiçosos. Busquemos o milagre de reconhecer nossa dignidade, nossa missão, porque o Senhor está conosco.

Cristo veio lançar fogo sobre a terra (cf. Lc 12,49) e, desse modo, o mundo e a humanidade tornaram-se uma imensa sarça ardente pela incandescência de sua glória, como afirmam os Pais da Igreja, queimando todas as raízes do mal e revelando a raiz divina dos seres e das coisas. Nós, assim, somos vivificados em Cristo, porque Deus “nos ressuscitou e nos fez assentar-nos nos céus, em Cristo Jesus” (Ef 2,6). Mesmo que ainda escondida sob cinzas da cegueira, da avareza, do orgulho a serem afastados, com Cristo nossa vida está em Deus.

Pe. José Artulino Besen

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