VIVER PARA MORRER – MORRER PARA VIVER

Jesus pregado na cruz – Cripta na igreja de São Pio

Morte e vida são estados inseparáveis da experiência da fé cristã. Quem não morre não produz frutos se não vive, e quem vive não produz frutos se não morre. Essa é a pedagogia que Jesus revelou no drama da redenção: sendo Deus, fez-se homem, e fez-se homem para ser Deus. Desceu ao mais profundo da miséria para alcançar o mais alto da glória.

A vida espiritual, isso é, a vida no Espírito, tem início quando Cristo nos ordena: Vive! E tem continuidade quando novamente nos ordena: Morre!

A ordem de viver se dirige a nossa condição de mortos pelo pecado necessitados de morrer para o pecado. Somente o Senhor que venceu a morte pode ordenar que a vida tome conta de nossa existência. Mas, o cristão não tem como opção simplesmente viver, pois ele busca reviver a vida do Paraíso. Apenas viver é um convite ao comodismo, uma cilada na qual muitos caem: estou livre, pois morri para o pecado e agora vivo. A salvação está garantida. Engano.

Jesus não morreu e ressuscitou para que vivêssemos apenas vida humana: a vocação cristã é a vida divina, sermos imagem e semelhança de Deus. Com o “vive”, somos imagem de Deus; com o “morre” iniciamos o caminho da semelhança com Deus, nossa deificação. O horizonte não pode prescindir do chamado que Deus nos faz: sermos participantes da natureza divina (2Pd 1,4), pois somos da raça divina (At 17,28-29). Somos chamados a ter a mesma herança de Cristo, formar o mesmo corpo de Cristo, participar da mesma promessa de Cristo (cf. Ef 3,6).

Alguém poderia objetar: então, viver vida cristã é deixar de viver vida humana? Não, pois se é realmente humano sendo realmente divino, à imagem de Cristo. Vivendo em Cristo, quanto mais humanos, mais divinos somos e, quanto mais divinos, mais humanos. O Senhor veio nos descrever o Pai para nos introduzir na pedagogia de filhos.

Após o grito do “vive”, segue-se o grito do “morre”: morrer para tudo aquilo que em nós obscurece a imagem de filhos de Deus, deturpa nossa condição de sermos de raça divina, de possuirmos a natureza divina. É o caminho tantas vezes citado por Paulo: no momento em que renascemos iniciamos o logo, doloroso, mas feliz processo de conversão. A conversão é o ponto de partida daqueles que escutaram o grito da Vida e sentem que não morrendo para a morte não alcançarão a vida em plenitude, a liberdade dos filhos de Deus. Morrer para todas as escravidões é tornar possível sermos verdadeiramente livres.

Esse destino não é fruto de nossa competência: é obra da graça. Deixamos o caminho livre e a graça pode nos trabalhar até liquefazer nossa alma, na expressão bela e atemorizadora de Evágrio Pôntico (+399): para nos introduzir na beleza da vida espiritual, o Espírito precisa nos liquefazer e assim nos moldar segundo a semelhança de Deus. Na hora em que morrermos totalmente para o egoísmo nossa vida será reconstruída como vida nova, vida em Cristo.

Os santos e profetas escutaram o “Vive” e sentiram muita alegria. Depois escutaram o “Morre” e mergulharam no campo das provações de amor. Novamente escutaram o “Vive” e mergulharam na paz total quando, novamente, o Senhor ordenou “Morre”, pois na condição presente a perfeição é um caminho a ser plenificado somente na contemplação definitiva da face do Senhor, buscada com todo o empenho durante a vida terrena.

É um combate de amor, é uma luta de amantes: Oséias a viveu casando-se com uma prostituta que depois retorna à prostituição; Jeremias, perseguido por todos os lados, chora como amante provado: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir! Foste mais forte do que eu e me subjugaste! Tornei-me a zombaria de todo dia, todos se riem de mim. … Pensei: Nunca mais hei de lembrá-lo, não falo mais em seu nome!. Mas parecia haver um fogo a queimar-me por dentro, fechado nos meus ossos. Tentei agüentar, não fui capaz!  … Tu, porém, Senhor, estás comigo como lutador invencível!” (cf. Jr 20, 7-13). Para Jeremias, era impossível viver sem o Senhor. Dom Hélder Câmara (+ 1999), profeta da Igreja, foi seduzido pelo Senhor na imagem do injustiçado: nunca mais teve paz. De todo lado perseguição, calúnia, desprezo entre seus próprios irmãos, mas permaneceu na alegria de ser liquefeito por Jesus escondido em cada pobre. Pe. Paulo Bratti (+ 1982), homem provado na fidelidade ao Evangelho, gostava de repetir: “Nós queremos as consolações de Deus, mas não queremos o Deus das consolações”. Queremos ouvir o “vive”, subtraindo o “morre” o que é impossível para quem aceita viver a vida cristã como paixão e ressurreição.

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