A PALAVRA DE DEUS, FONTE INESGOTÁVEL

Luz sobre a Palavra – Daniel Lifschitz – 1990

“O Senhor coloriu com muitos tons a sua palavra”. O estudo científico das Escrituras, necessário para enriquecermos a compreensão do texto, pode levar a uma repetição monótona: esse texto significa isso, e pronto! esse capítulo vem dessa fonte, esse versículo dessa outra, como se cada palavra não dependesse do contexto e do leitor. João XXIII reclamava dos que faziam da Bíblia um salame servido em fatias.

Evidente que não é esse o objetivo dos exegetas, dos estudiosos. Todo texto é aberto a muitos significados além de seu contexto. Esse significado se nos revela de acordo com o momento que vivemos. Veja-se a parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32): se a lermos todos os dias, a cada leitura teremos uma experiência diferente, porque nós estaremos vivendo um momento diferente.

Se, além disso, termos presente que é Palavra de Deus, as experiências serão tão ricas e infinitas como o próprio Deus. Ele nos fala sempre de modo apropriado para cada situação de nossa vida.

Os verdadeiros leitores da Palavra exclamam: “tantas vezes li, ouvi, e nunca me passou pela cabeça esse sentido, essa imagem, essa lição”. Deus não se deixa aprisionar em nossas armadilhas mentais e simplificadoras. A Bíblia, pela multiplicidade de textos, livros, épocas é um bosque riquíssimo onde o verde da Vida oferece mais tons do que podemos enxergar. Afirmou Martinho Lutero: “Seria necessário viver três anos acompanhando Jesus, como os Apóstolos, para entendermos um pouco da parábola da ovelha perdida (Lc 15, 1-7). Mesmo que acompanhássemos os Apóstolos por cem anos, não teríamos compreendido o Evangelho”.

Fundamental é ter presente que a Bíblia somente alcança seu sentido pleno na Igreja: é um livro que Deus dirige a seu povo. A Palavra se dirige à pessoa que busca salvação, mas essa pessoa não busca isoladamente a salvação e sim, na comunidade. Sem essa inserção na Igreja teremos a calamidade da formação de seitas.

O Concílio do Vaticano II, quando ensinou sobre a verdade na Sagrada Escritura deu-nos essa segura definição: “Os Livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade relativa à nossa salvação, que Deus quis fosse consignada nas Sagradas Escrituras” (Dei Verbum, 11). Portanto, na Bíblia há história, geografia, antropologia, mas não é essa sua finalidade. Deus Pai quis fazer dela uma carta de amor, de amigo, uma carta de salvação. E sabemos que do divino ventre materno brotam surpresas sem fim. Do Espírito Santo, o artista da salvação, surge a riqueza da vida dos crentes: basta ver a variedade dos Santos, cada um com seu carisma e modo de expressar o amor.

Cada fiel tem na Escritura o seu caminho e jeito de salvação. Um mesmo texto leva um pecador às lágrimas da conversão, um bispo ao compromisso com o rebanho, um casal à vivência conjugal cristã, um jovem a nutrir o heroísmo dos idealistas.

“O Senhor coloriu com muitos tons a sua palavra”: é um quadro multicolorido, é um jardim de muitas flores. Os fundamentalistas (que interpretam o texto bíblico ao pé da letra) não sentem a riqueza desse jardim e repetem as mesmas coisas, beirando o fanatismo. Quem lê a Bíblia sabendo de suas muitas cores nunca será fanático, pois estará aberto à riqueza que o Espírito sopra nos que lêem com fé a Palavra.

Os Pais da Igreja sempre viram nas Escrituras diversos sentidos: o literal (o que o texto diz), o espiritual (o que o Espírito diz para minha vida de fé) e o moral (o que o texto diz para minha vivência da fé). E cada sentido, por sua vez, se subdivide quase sem limites. Assim, ao lermos o texto temos a experiência da imagem, da contemplação da obra divina e do compromisso vital com o Senhor da Aliança.

O sírio Santo Efrém (+373), apelidado de “harpa do Espírito Santo” por sua poesia mística, mantinha uma escola bíblica para ensinar os cristãos a sentirem a beleza e riqueza da Palavra de Deus escreveu: “O sedento enche-se de gozo ao beber e não se aborrece por não poder esgotar a fonte”. Santo Irineu diz que “são muitas as águas do Espírito de Deus, porque é muita a riqueza e grandeza do Pai” (Adv. Haer. 4,14,2-3). Alguém ficaria triste por não conseguir beber toda a água de um poço? Pelo contrário, se alegra, pois na próxima sede retorna e encontra água. Assim acontece com quem bebe da Água viva do Espírito Santo que jorra da Bíblia: quanto mais profundidade alcança na contemplação do mistério, mais sede tem de beber dessa Água e ficará feliz por nunca esgotá-la.

Efrém conclui: “Vença a fonte a tua sede, mas não vença a tua sede a fonte” (Coment. in Diatéssaron, 1,18-18).

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  1. #1 por Alexandre em 26 de abril de 2010 - 09:32

    A Palavra, beleza sempre antiga e sempre nova!
    Obrigado pelo artigo padre!

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