AS MULHERES, APÓSTOLAS DOS APÓSTOLOS

As Mulheres Miróforas (Siena)

Na Liturgia romana, elas inauguram o Evangelho da Vigília pascal e, na Liturgia ortodoxa, são comemoradas no 2º. Domingo da Páscoa. São mulheres que amavam o Senhor e foram ungir seu corpo. Os Evangelhos citam o nome de algumas mulheres que acompanharam Jesus até aos pés da cruz: Maria de Mágdala, Maria mãe de Tiago menor e de Joses, Salomé, mãe dos filhos de Zebedeu, Joana e Suzana. Um laço as unia: todas tinham sido curadas de doenças e libertas de espíritos imundos. E, claro, Maria, a Mãe do Senhor.

A liturgia lembra a delicadeza das Mirróforas, mulheres que saem de casa nas primeiras horas da madrugada de domingo para ungir o corpo do Senhor. Ele fora sepultado às pressas, merecia muito mais: sem economizar, adquiriram os ungüentos e os melhores perfumes para ungi-lo. Um amor destemido era o delas: não pensaram na pesada pedra a ser retirada nem nas hostilidades de muitos judeus, dos quais tinham ouvido os gritos blasfemos. Amavam Jesus, a quem serviram em suas andanças apostólicas, permaneciam fiéis ao Mestre quando outros o haviam traído e dele lembravam a bondade, a misericórdia, a amizade demonstradas sempre.

A Liturgia ortodoxa descreve a cena com imensa delicadeza: “Ao amanhecer as Mirróforas, tomando consigo os aromas, foram ao sepulcro do Senhor e notando coisas que não esperavam, pasmas ao ver a pedra removida, diziam uma à outra: – Onde estão os lacres do túmulo? Onde estão os guardas que Pilatos enviou por precaução? Mas seus temores cessaram ao ver o anjo resplandecente dirigir-se a elas dizendo: – Por que buscais em pranto Aquele que está vivo e vivifica o gênero humano? Cristo, nosso Deus onipotente, ressurgiu dos mortos e doa a todos nós a vida imortal, a iluminação e a grande misericórdia”. Então as santas mulheres derramaram óleos perfumados e lágrimas no sepulcro, e sua boca encheu-se de júbilo ao proclamar: O Senhor ressuscitou!”. Outro Tropário bizantino resume o mistério: “Às piedosas Mirróforas junto ao túmulo, o Anjo disse: Os aromas convêm aos mortos! Cristo, porém, é incorruptível. Cantai antes: O Senhor ressuscitou, dando ao mundo a grande misericórdia”.

Apóstolas dos Apóstolos – evangelizadoras dos evangelizadores

Foram as primeiras a receber a ordem de anunciar a Ressurreição: apóstolas dos apóstolos. Até hoje são as que mais se solidarizam com Maria aos pés da cruz, e com os pobres nos quais vêem o retrato do Senhor dos Sofrimentos.

Uma Antífona da liturgia lembra o encontro de Jesus com aquela que “Tendo ido com fé até o poço, a samaritana contemplou a ti, água da sabedoria. Dessedentada por ti com abundância, obteve o reino do céu por toda a eternidade, e sua memória é gloriosa”.

Mas, fiquemos nas mulheres Mirróforas, as que levaram ungüentos e perfumes para embalsamar o Senhor. Não foi somente esse o seu gesto de carinho. Os Evangelhos tecem o louvor dessas mulheres transformadas pela misericórdia de Jesus. Nenhuma mulher condenou Jesus, nem a pagã mulher de Pilatos. O ódio veio dos homens que se julgavam senhores da Lei de Deus. Foram as únicas que acompanharam o Senhor, correndo o risco, pois estavam do lado de um condenado, o que não as recomendava. Nós lhes somos gratos porque, ao longo da subida do Calvário, o choro das mulheres foi o único som amigo que chegou aos ouvidos do Salvador. Foram, com os do jovem João, os últimos olhares compassivos contemplados por Jesus antes de morrer, e seus olhares foram os únicos olhares de amor e compaixão que ele contemplou. Foram as últimas que viram o olhar amoroso do Senhor, devastado pela dor, mas com força para dizer: “Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem”.

Passada a tragédia do Calvário, de madrugada vão ungir o corpo do Senhor e são as primeiras que viram o Ressuscitado porque foram as últimas que o acompanharam. Recebem a missão de serem Apóstolas dos Apóstolos, evangelizadoras dos evangelizadores.

Em nenhum momento da vida pública se escandalizaram de Jesus ou o evitaram: “Bem-aventurado quem não se escandalizar de mim”. Não se deixaram contaminar pela linguagem da inteligência, mas se alimentaram da linguagem do amor: Deus é amor. Foram as únicas, depois de Maria, que tinham compreendido o espírito do Evangelho.

É de Maria Madalena o grande anúncio, para todo o tempo princípio da experiência religiosa cristã: “Eu vi o Senhor!” (Jo 20,18). Quem não teve esse encontro pessoal desconhece a transformação que acontece somente naquele que também pode dizer, na fé: “Eu vi o Senhor!”. Por primeiro, essas mulheres tiveram a graça de anunciar: “Eu vi o Senhor!”

, , , ,

%d blogueiros gostam disto: