NÓS, PADRES, PERDOAMOS E PEDIMOS PERDÃO

A face de Cristo retrata todos os sofrimentos e pecados, dos inocentes e dos pecadores. Todos são tocados por sua misericórdia (Grünewald – pormenor trabalhado da Crucifixão).

As palavras do Papa foram contundentes: “crimes hediondos”, “confiança traída”, “dignidade violada”, “dano imenso”, “ultraje”, “indignação”, “tristeza”, “lágrima”, declarando-se “profundamente desolado” ante os sofrimentos das vítimas de abusos cometidos por padres. Em 20 de março pp. Bento XVI dirigiu Carta à Igreja irlandesa e a toda a Igreja tocando nesse drama cujos sinais se alastram como tsunami de país a país. Numa passagem, ficou grafado: “Em nome da Igreja exprimo abertamente vergonha e o remorso que todos sentimos, experimentamos”. O Papa também critica a “preocupação descabida” em manter o bom nome da Igreja para evitar escândalos, o que levou à impunidade sob o pretexto de preservar a dignidade de cada pessoa, atitude essa tomada por diversos bispos e que está na raiz do drama atual.

A tragédia da pedofilia e do abuso sexual de jovens é a mais dolorosa das violências, a mais perturbadora invasão na afetividade de uma criança ou jovem. O Papa João Paulo II manifestava sua profunda dor diante daqueles que detêm a primeira responsabilidade de defender os mais frágeis da sociedade e dão-se o direito de profaná-los sacrilegamente.

“Nós perdoamos e pedimos perdão” foi a palavra repetida na Celebração do Perdão, em março de 2000, corajosamente presidida e conduzida por Papa Wojtila. Nós perdoamos a todos os que nos ofenderam, e pedimos perdão aos que nós ofendemos: as minorias, a violência da Inquisição, das Cruzadas, do Colonialismo, o anti-semitismo, a mulher, o negro escravizado.

Os filhos não pagam pelo pecado dos pais, mas somente viverão a verdadeira filiação pedindo perdão por seus pais. Reconciliar-se com a História diante do Deus misericordioso é ato de humildade cristã, de santificação em praça pública na confissão dos pecados.

Assim nós, padres, perdoamos e pedimos perdão. Nada justifica a chaga da pedofilia, do sexo a pagamento, do escândalo de padres e religiosos. Num tempo se usava o argumento de que se atacava a Igreja para calar-lhe a boca. Não serve mais: nossa boca será livre para proclamar o Evangelho da Graça se ela mesma for purificada pela graça e – dolorosamente – pela humilhação em praça pública. Tantas vezes erguemos nossas mãos no gesto divino de absolver o penitente dos pecados, e o fazemos com imensa alegria. É também a vez dos cristãos erguerem as mãos para nos perdoarem em nome das comunidades, das famílias, das vítimas marcadas pela violência sexual.

Diante do Senhor misericordioso todos seremos mais humildes: o pecado é fruto da infidelidade, da auto-suficiência, do Evangelho na prateleira das facilidades. Pedir perdão é fortalecer-nos para o combate do bem, da integridade pessoal. Quanto mais sentirmos a fragilidade corroendo nossos ideais, nosso primeiro amor, mais a força do Espírito nos renovará com seu sopro de Vida. E todos, padres, cristãos e pessoas de boa vontade nos daremos as mãos em defesa da infância e da juventude.

Maturidade afetiva, condição para o celibato

As acusações que nos levam à confissão dos pecados também devem ser purificadas. O ato de uma pessoa não é o ato de uma comunidade. Os pecados de alguns – ou mais – sacerdotes, não são pecados da Igreja de tal País. É injusto acusar a Igreja dos Estados Unidos de pedófila, pois se estará negando a dedicação heróica, fiel de dezenas de milhares de sacerdotes frente ao pecado de um pequeno número. Agora é a vez da Igreja na Alemanha e as acusações têm um endereço cruel: a todo custo quer-se atingir a pessoa do Papa Bento XVI. Responde-se à tragédia da pedofilia nas hostes clericais com a crueldade do ataque à Igreja Católica, que incomoda, e muito, os que defendem um relaxamento moral a qualquer preço no campo do aborto, do casamento homossexual, da criminalização de qualquer palavra que cheire a homofobia.

Aproveita-se para atacar a disciplina do celibato católico afirmando: existe pedofilia na Igreja porque os padres não se casam. As estatísticas não o comprovam. Segundo a ONG Cecria, dedicada à proteção dos menores, de 291 casos de abuso sexual no Brasil em 2009, as crianças foram vítimas: 33% do pai ou mãe, 14% do padrasto ou madrasta, 13% do vizinho, 10% do tio, 9% de conhecido, 6% do avô, 5% do professor, sendo 4% de desconhecidos. E mais ainda: o consagrado psiquiatra e neurologista alemão Marfed Lutz, da Universidade de Wuerzburg, derrubou a polêmica tese do criminalista europeu Bill Marshall. Para o criminalista, a castidade não representa um fato natural e pode predispor a uma conduta desviante. Segundo Lutz, não há “déficit de intimidade” entre celibatários. Quem “consegue manter uma vida espiritual iluminada pela presença de Deus não padece de déficit afetivo”, frisou Lutz.

Um mal não elimina outro mal, evidente, mas deve-se notar que o sacerdócio às vezes tem sido o refúgio de pessoas sexualmente desequilibradas que se escondem no celibato. A pedofilia, além de crime, pode também ser uma patologia, da qual os próprios pedófilos são vítimas. Em muitos casos, o pedófilo de hoje foi vítima de violência sexual na infância, na mocidade.

A santidade da Igreja cresce nos grandes tempos de reconciliação, de humilhação. É tempo de Páscoa, é tempo de ressurreição. Nós, padres, perdoamos e pedimos perdão. Nós que tanto anunciamos o Senhor das misericórdias, cremos firmemente que também seremos lavados pela misericórdia do Senhor.

Fazemos nossa a oração pelas vítimas, proposta pela Igreja irlandesa:

“Senhor, sofremos muito por aquilo que alguns de nossos fizeram a teus filhos:

foram tratados de modo sumamente cruel, especialmente na hora da necessidade.

Deixamos dentro deles um sofrimento que carregarão por toda a vida.

Isto não estava nos teus planos para eles e para nós.

Por favor, Senhor, ajuda-nos a ajudá-los. Guia-nos, Senhor. Amém.”

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  1. #1 por Rosa Junkes Della Giustina em 12 de abril de 2010 - 15:28

    Acho muito importante que padres, bispos e leigos mais ligados a Igreja falem e escrevam comentando sobre este assunto. Sabe-se que o ataque é dirigido à Igreja. Mas a realidade existe e é preciso que nós, católicos, tenhanos conhecimento do que é a “verdade” e o que a mídia e quem está por traz dela, pretende com tanto comentário e tanto alarde. É importante que saibamos defender nossa Igreja, porém baseados em dados, em fatos. Nossos argumentos tem que ser convincentes, não “inocentes”. E os ataques também não podem ser ignorados. Devem ser encarados como desafios para crescermos como IGREJA DE JESUS.

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