CRISTO SE FAZ PECADO E DESTRÓI O PODER DO PECADO

Na cruz, Jesus carrega os pecados do mundo – Michel Ciry

Deus, ao criar o ser humano, foi à sua imagem e semelhança que o criou e o fez senhor da criação. Deu-lhe uma vocação única: viver somente de Deus e nutrir o universo com Deus. O pecado corrompeu o homem e a mulher, e quiseram viver de si e nutrir deles o universo. O Pai não foi derrotado, a criação, sim E Deus assume o plano da redenção a ser realizado por seu Filho que, com ele, presidira à criação. O Apóstolo o sintetiza com duas palavras: a descida total do Filho às misérias da humanidade e sua subida à glória.

Paulo, na Carta aos Filipenses, transmite essa verdade com as palavras que recebera da tradição, e que os cristãos aprendiam na catequese catecumenal: “Cristo Jesus, existindo em forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano. E encontrado em aspecto humano, humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo o nome. … E toda língua confesse: Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fil 2, 6-9.11).

Quando a Palavra de Deus se faz carne e passa a habitar entre nós, Jesus assume tudo o que é humano, menos o pecado, para tudo purificar. O seu esvaziamento divino (kênosis) é preenchido com a história humana em todos os seus dramas e alegrias. O Filho de Deus assume a humanidade.

Um pensamento de certo modo ingênuo, que não leva às últimas conseqüências o drama da redenção, ensina que ao ser concebido no seio virginal de Maria Cristo já se esvazia totalmente. Bastaria esperar a paixão e morte de cruz. Isso não pode corresponder à verdade real do assumir a humanidade. Quando nós nascemos estamos apenas ingressando na experiência da vida humana e, dia por dia, ano por ano vamos tornando nosso aquilo que é humano de alegria e de dor.

Assim foi a história de Jesus: seu nascimento é puro, na inocência da criança, epois adorada pelos Magos; a fuga para o Egito é sinal para ele do carinho dos pais; a vida em Nazaré é um aprendizado feliz de viver numa família e na comunidade alimentada na Sinagoga; aos doze anos, no Templo, tem um momento de realização religiosa ao se confrontar com os doutores. Mas, e isso é a redenção, ele vai fazendo seu tudo o que é humano. Quando recebe o batismo das mãos de João Batista, faz seus todos os pecados da humanidade. E quando João Batista o apresenta como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo o rebaixamento de Jesus e seu esvaziamento se aprofundam. O pecado é a inimizade com Deus: fazendo seus os nossos pecados, Jesus sofre as conseqüências dessa inimizade humana com o Pai, a dor do distanciamento que ele alivia nas vigílias de oração. Ele invoca o Pai com toda a ternura de Filho, mas, na livre escolha de amor por nós, vive a experiência de ignorar o Pai. Sente a tragédia do distanciamento da fonte da Vida, pois assume as dores e pecados nossos. O que não é assumido não é redimido, afirmam os Santos Pais da Igreja: Jesus deve assumir tudo o que necessita de redenção.

Quando se aproxima o momento extremo de sua descida, ele está no horto das oliveiras fazendo a experiência da solidão humana (os Apóstolos pegaram no sono) e divina: ele é puro pecado, rejeita o Pai. O suor de sangue, a impotência gerada no viver as conseqüências do pecado sem ter pecado, fazem-no gritar “Pai, se é possível, afasta de mim este cálice” (de viver sem ti); imediatamente retoma a decisão pela obediência: “mas não se faça a minha vontade, e sim, a tua”. Aplica-se a Jesus, nessa hora, o Canto do Servo Sofredor: “Era o mais desprezado e abandonado de todos, homem do sofrimento, experimentado na dor, indivíduo de quem a gente desvia o olhar, repelente, dele nem tomamos conhecimento. Eram, na verdade, os nossos sofrimentos que ele carregava, […] estava sendo esmagado por nossos pecados” (cf. Is 53, 1-12).

Ali está o Filho vivendo a dor da ausência do Pai e a dor das ofensas ao Pai que ele faz suas, e aguarda os dias finais: a prisão, a tortura, o falso julgamento, a subida ao Calvário, a crucifixão. No momento final da solidão na cruz, da pungente saudade do Pai, seu último grito de socorro: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Não foi Deus que o abandonou, foi ele que, assumindo nossas misérias e os pecados da história, abandonou o Pai. Sabe que esse é o preço do resgate da humanidade e do universo reconciliados e grita sua última palavra filial: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”.

Naquela hora o pecado foi morto nele, o universo nele tornou-se oferenda pura e desmorona o domínio de Satanás. A morte foi tragada na morte do Senhor, foi sepultada em sua sepultura, para sempre. Tem início o mistério da subida: o Pai ressuscita seu Filho que lhe oferece toda a família humana e o universo reconciliados. E o exalta acima de tudo, dando-lhe o Nome, único Nome pelo qual podemos ser salvos: Jesus Cristo, seu Filho e nosso Senhor.

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