A FORÇA DA FRAQUEZA CRISTÃ

Maria encontra seu Filho

No musical Jesus Christ Superstar (refilmagem de 2000), a certa altura um Judas decepcionado com o rumo catastrófico das coisas reclama que “Jesus teria feito melhor se tivesse planejado”. O fracasso foi por mau planejamento, inclusive de época: Jerusalém era pobrezinha, sem as comunicações modernas que hoje possui: por que Jesus não deixou para vir agora? Tudo seria televisionado, comentado, o mundo ficaria entusiasmado. Um sucesso! O pobre Judas não podia se conformar com um final tão desalentador depois de três anos de anúncio do Reino, de expectativas messiânicas.

São muitas as histórias de pessoas que não encontram Deus apesar de procurá-lo de coração sincero. É que se equivocam no ponto de partida: nosso Deus é fraco e se revela somente aos pobres e pequenos, capazes de recebê-lo em sua fragilidade.

Blaise Pascal (1623-1662) foi físico, matemático, filósofo moralista e teólogo francês. Como matemático (criou dois novos ramos: a Geometria Projetiva e a Teoria das Probabilidades) queria provar e sentir a existência de Deus. Sua ciência nada resolvia e, para ele, crer era questão de vida. Numa noite, cansado e suado, teve a revelação: “Deus é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, não o Deus dos filósofos e sábios”. Pascal escreveu essa frase num pano e o costurou em seu paletó, para lembrar dessa verdade cada vez que o vestisse. Toda a Bíblia revela nosso Deus caminhando com seu povo, na bondade, paciência, admoestação, perdão. Se nós nos aproximamos dele, ele se aproxima de nós (Tg 4,7).

Pascal descobriu que é o coração o órgão pelo qual se chega à existência de Deus, e não a razão. A melhor forma de crer é amar, pois somente podemos crer num Deus a quem podemos amar siceramente. O Cristo é o sempre-vivo, o que segue conosco todos os dias.

O Pe. Irenée Hausherr, grande estudioso da teologia ortodoxa, expressou a realidade e seriedade da encarnação nesses termos: o evangelista João, ao proclamar a verdade central da fé cristã “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14) está afirmando que Deus, após ter emigrado do céu para o meio de nós através de seu Filho, possibilita a nossa emigração deste mundo para a eternidade com ele. Santo Atanásio, o fogoso patriarca de Alexandria, que sofreu quatro exílios para defender esse mistério, faz essa “emigração” divina remontar à criação dos primeiros Pais a fim de que pudéssemos aceitar seu Filho: “Deus quis doar-se, por meio de Jesus, a todas as suas criaturas, imprimindo-lhes alguma coisa da semelhança e da beleza de si mesmo em todas e em cada uma. Assim nos tornamos aptos a conhecer o Pai” (cf. Oratio 2, 78.81-82).

Na profundeza do amor trinitário, o Pai deixou sua marca em nós para que conheçamos o Filho e o Filho, por amor, deixa em nós sua marca para conhecermos o Pai. A um Filipe espantado, Jesus diz: “Filipe, não me conheces? Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9). Nesse momento Jesus une dois verbos: conhecer e ver: quem o conhece, viu o Pai. E o Pai dirá: “Quem quiser me ver, veja meu Filho amado e o escute” (cf. Lc 9, 35).

A insistência em querer conhecer a Deus sem primeiro deixar-nos envolver por seu amor misericordioso nos leva a transformar o Cristianismo numa grande estrutura, com planejamento sofisticado (que é necessário, mas não leva a Deus). Ficamos até impressionados com a imponência de certos hierarcas, com o esplendor de certas Eucaristias que transformam em espetáculo a íntima Ceia do Senhor antes da Paixão, Morte e Ressurreição.

O Cardeal François-Xavier Van Thuan (1928-2002), fascinado por Cristo, pelo qual sofreu 13 anos de cárcere comunista no Vietnam, no retiro pregado ao Papa citou algumas causas que o levaram a amar o Senhor: Eu o segui porque vi que era fraco e fracassado. Cristo é um péssimo economista (paga o mesmo a quem trabalhou uma hora ou 8 horas, mau matemático (deixa 99 ovelhas para procurar uma), memória fraca (esquece os pecados quando perdoa, como no caso do bom ladrão) e assim por diante. Tudo por amor, um amor impossível de não nos arrastar. A vida de Van Thuan foi uma prova do “desperdício” divino: cheio de entusiasmo, saúde, ao ser nomeado arcebispo coadjutor de Saigon sai do Palácio do Governo para a prisão (1975-1988), ele, com tantos projetos pastorais, com tanta energia para acompanhar seu povo. Logo, porém, aceitou as regras de Deus e não viveu de ilusão: “Eu não esperarei a libertação. Vou viver o momento presente, enchendo-o de amor”. E muito pôde fazer pelo testemunho de sua vida, mais do que pelas obras.

Voltemos ao musical Jesus Christ Superstar, na filmagem original de 1973. Antevendo o desenlace de sua missão, Jesus lamenta: “Não sobrarão minhas palavras, meus atos, apenas eu”. Mas é isso mesmo o que importa: Ele.

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