O PAI, O FILHO PRÓDIGO E SEUS DOIS IRMÃOS

O FILHO PRÓDIGO – Charlie Mackesy

O irmão do meio olhava para o mais velho e pensava: “Antes de mim, ele vai gozar a vida. O Pai está velho, mas forte. Se for esperar pela morte dele para receber a herança, perco minha juventude”. E toma a decisão: “Meu Pai, dá-me a parte de minha herança. Já trabalhei que chega, sou jovem, quero aproveitar um pouco da vida”.

O Pai, sabendo que liberdade e responsabilidade não há filhos, com dor no coração deu-lhe a parte da herança em dinheiro. Com dor maior ainda viu o jovem partir, tão sem experiência, se achando tão sabedor de tudo. Como iria sofrer! Mas, era um bom filho. Teria todo o tempo do mundo para esperá-lo e recebê-lo com todo o afeto paterno.

O tempo passou, o jovem tornou-se homem, tinha muitos amigos para as festas e farras, não trabalhava e o dinheiro acabou, e com ele os amigos. Único caminho: arrumar trabalho. Como não tinha experiência e somente fama de farrista, o bom emprego não surgiu. Acabou cuidando de um curral de porcos, com salário baixo. Para ter um dinheirinho para alguma festa, comia da comida dos porcos. Quando foi descoberto, puseram-no no olho da rua. E agora?

Lembrou-se de seu Pai, lembrou-se que era filho. Conhecia seu Pai: ele nunca rejeitaria seu filho. Ensaiou umas palavras bonitas de desculpas, mais umas explicações para seu fracasso e refez o caminho da volta.

Seu coração batia forte, tremia todo o corpo (um pouco por frio e fraqueza) quando se aproximava da casa paterna. Lá longe, bem longe, viu um velhinho apoiado numa bengala, com vista cansada olhando o horizonte como a procurar ou esperar alguém. Chegou mais perto. Emoção: era o Pai. Quando ele gritou “Meu Pai”, o Pai soltou um grito de alegria e correu ao encontro de quem chegava: pela voz, era seu filho! E era.

Um homem. Acabado pela vida, envelhecido, semidespido, sujo, enfraquecido, era seu filho querido esse que estava prostrado a seus pés, segurando na roupa do Pai para sentir força. O filho começou a recitar as desculpas longamente preparadas. O Pai tapou-lhe a boca, agarrou-o, comprimiu-o contra o peito para sentir novamente a batida do coração do filho e repetiu tantas vezes quantas pode: “Meu filho! Tu voltaste! Eu sabia que voltarias”.

O velho Pai carregou-o para a casa, entrando pela porta dos fundos: primeiramente deu-lhe um banho, vestiu-o, perfumou-o, pôs calçado aos pés para que ninguém percebesse como tinha chegado e o filho acabasse passando por alguma humilhação. Todo arrumado, o Pai proclamou a festa: “Este meu filho estava morto e ressuscitou! Hoje é festa para sempre. Não economizem nas despesas”.

E chegou o filho mais velho. Vendo o clima de festa, não quis entrar. Mais irritado ainda ficou ao saber do motivo: festejar a chegada de um malandro arruaceiro. “Esse velho não tem mesmo o que fazer. Eu trabalho duro, sirvo-o sempre, nenhuma festa. Agora sei que esse filho era o queridinho dele”. E ficou fora. O Pai também foi procurá-lo, queria também mostrar-lhe o quanto o amava. Enquanto a festa rolava dentro da sala o Pai ficou à porta convencendo o filho mais velho de que não era seu empregado, mas filho, portanto, tudo o que era do Pai era também dele. Não sabemos se o Pai já convenceu esse filho, que tinha espírito de escravo, a crer que era filho e tinha um irmão que retornara, não muito são, mas agora são e salvo.

Deu noite. Todos queriam continuar a festa, mas o Pai convenceu-os de que o filho necessitava de descanso, pois tinha sofrido muito e a viagem de volta tinha sido dura, com muito caminho, alguma água, quase nenhuma comida.

O filho foi para o quarto no andar de cima. Estava feliz porque era filho e agora estava convencido de que conhecia de verdade quem era seu Pai. Ia pegando no sono quando batem à porta. Abriu-a. Era o caçula, que ele mal tinha conhecido. Bonitão, forte nos seus 18 anos. Abraçou-o e contou-lhe da alegria de vê-lo assim, tão puro e belo.

Mas, o caçula sentou-se à beira da cama e, meio sem jeito, perguntou: “Mano, o que você andou fazendo por esses anos todos?”. O irmão foi sincero, pois queria ajudá-lo com a experiência que adquirira: “Irmãozinho, recebi a herança, por sinal muito rica, e fui para o exterior. Viajei muito. Farreei, muita dança, bebida, mulher, festa a não ter fim. Quando o dinheiro foi ficando raro, reduzi as despesa mas não a farra: bebida falsificada, prostitutas e droga, muita droga. Não tinha experiência. Quando me vi no fundo do poço, decidi voltar para nosso Pai. E você viu, mano, como nosso Pai é fantástico. Nenhuma repreensão, pergunta, somente a alegria de me abraçar. Nasci de novo!”

O irmão mais novo pôs-se a pensar, pela mente encenava as peripécias do irmão, ficou excitado pelas aventuras e, do alto de sua experiência de 18 anos decretou: “Mano, você é um burro. Não soube aproveitar a vida nem cuidar do dinheiro. Agora quem vai sou eu!”

De manhã, cedinho, procurou o Pai e lhe falou: “Chefe, dá-me a parte de minha herança. Já trabalhei que chega, sou jovem, quero aproveitar a vida”. Na hora o Pai entendeu tudo. Mas, respeitou o filho e deu-lhe a parte da herança.

…e o filho caçula também partiu…

E o filho caçula partiu feliz da vida, pois, agora sim, iria viver. Nunca mais voltou. Anos depois soube-se que fora morto numa briga por um prato de comida.

Anúncios

, , , ,

%d blogueiros gostam disto: