CRIATIVIDADE DOS SANTOS, MONOTONIA DO PECADO

Jesus é erguido por nós – Via-sacra de Jasna Gora

O velho confessor, de ouvidos cansados de escutar pecados do tempo da rigidez moral, que na época recente tivera a paciência de escutar pecados dos que se diziam sem pecado, considerando-se apenas vítimas de condicionamentos psicológicos, que ultimamente reabrira os ouvidos ao retorno dos antigos pecados, lamentava-se com um amigo: “Estou cansado! Não há pecados novos! Tanta coisa mudou, e os pecados continuam os mesmos!”. O amigo, vivido de experiência semelhante, o confortou: “É assim mesmo, irmão. O diabo é o mesmo, não mudou de receita, de sorte que nos pecados não há criatividade. Criatividade só se encontra nos santos, somente a santidade é criativa!”.

Foi pensando nessa queixa, e na resposta, que lembrei do pecado e da graça original: aos primeiros Pais e a cada um de nós, diariamente a proposta é a mesma: “Se não comeres do fruto da árvore do bem e do mal, não morrerás”, fala o Senhor. “Se comeres o fruto da árvore do bem e do mal, não morrerás!”, fala a velha Serpente.

Dependendo de nossa atitude, ou morreremos ou não morreremos. Aceitando o limite imposto pelo Criador diante de nossa imensa liberdade, viveremos. Aceitando a sedução do tentador de optarmos pela não aceitação de um limite e pela escolha da escravidão, morreremos. Na morte, a monotonia e na vida, a criatividade. No pecado a imposição do egoísmo, na obediência, a abertura ao outro no amor.

O mal não é uma conseqüência necessária, mas um ato livre do homem, conclui Dostoievski meditando sobre o resultado infinito de uma divisão infinita provocada pela desobediência.

Voltemos aos ouvidos cansados do velho confessor: tudo o que ele pode escutar é o fruto da divisão infinita operada pela ruptura entre o ser humano e Deus. Ele escutará os frutos monótonos de quem vive para si, no amor de si mesmo: o espírito voltado contra a vontade de Deus, o coração agindo exclusivamente no próprio interesse, o corpo a serviço do domínio e do prazer. Na obediência dá-se o contrário: o espírito é naturalmente voltado para Deus como Pai, o coração naturalmente voltado para o outro como irmão, todos os órgãos do corpo voltados para o serviço a Deus e ao outro, numa síntese amorosa e criativa.

O pecado será um monótono não, repetido a tudo e a todos e um sim infinito a si mesmo. A obediência a Deus será um sim criativo à vida, aos outros, à natureza, a Deus, na única competição que se permite, fazer o bem.

E voltamos à resposta do sábio confessor: “Criatividade só se encontra nos santos, somente a santidade é criativa”. O motor da santidade é o amor divino enxertado no amor humano por Jesus, Deus/Homem. Sem muita complicação Santo Tomás define o amor como o querer o bem do outro: “amar é querer o bem do outro”. Simples assim, sem condicionantes. Essa decisão nos coloca numa busca criativa de meios para repartir o pão, visitar o enfermo, consolar o triste, abrigar o peregrino da vida, promover a vida em comunidade, oferecer o braço amigo ao idoso, ao cego, ao deficiente, proteger a criação, multiplicar os dons recebidos, não se conformar diante de quem escolheu a morte das drogas, a fidelidade sem divisões no amor prometido, o corpo como comunicação do bem, do afeto, quebrar as correntes do ódio e da injustiça, mover-se pela compaixão, ouvir mais do que ser ouvido, perdoar sem a troca de ser perdoado, sentir-se servidor de cada criatura, numa palavra, fazer o que Deus faz e que nos é narrado por Jesus. E sempre com bom humor, pois santo triste é triste santo, o que não existe.

Os santos, única novidade na história humana, foram exímios na criatividade: da intimidade com Deus jorrava deles uma ilimitada intimidade com o ser humano e tornaram-se artistas do bem. São dotados de riqueza inesgotável em sua criatividade, pois nada se reservam e assim, o que sobra é sempre mais do que o repartido.

Sua generosidade e criatividade foram tão profundas que se ofereceram como vítimas associadas à Cruz de Cristo pela salvação do mundo: alguns viveram por anos a dolorosa noite escura da fé (Madre Teresa), outros receberam os estigmas dolorosos acompanhados de intenso sofrimento (Padre Pio), outros ainda semanalmente participaram dos sofrimentos de Cristo (Martha Robin), outros se ofereceram para fazer penitência em lugar dos pecadores (o Cura d’Ars). Não aceitaram deixar Jesus sofrendo sozinho, nem aceitaram que algum filho de Deus fosse condenado por sua omissão: livremente foram fazer companhia a Jesus no Calvário. Quanta vida a serviço da graça!

O pecado é um relato monótono da obra satânica, porque é filho da escravidão. O Cristianismo é a narração contínua da criatividade dos santos, pois é filho da liberdade.

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