O MEDO DA MORTE, ORIGEM DO PECADO

Adão – Francesco Messina – 1929

O pecado e a graça são frutos de uma promessa: o pecado primordial (Adão e Eva) foi fruto da promessa (falsa) da imortalidade e a graça da imortalidade (verdadeira) é fruto da morte redentora e da ressurreição de Jesus. O pecado é o salário do medo da morte e a ressurreição é fruto da confiança naquele que venceu a morte.

Deus, ao confiar ao primeiro casal o Jardim, deu-lhe tudo, mas com um limite: não comer do fruto da árvore do bem e do mal. Liberdade total, mas dentro de um limite necessário: a alteridade, aceitar o outro, Deus. A conseqüência seria a morte.

A serpente seduziu o Homem e a Mulher com a promessa oposta: podem comer sim, pois então vocês não morrerão, mas serão como Deus (cf. Gn 2,16-17; 3,1-3 – devo a inspiração desse texto ao Prior de Bose, Enzo Bianchi, numa conferência sobre a luta espiritual, em 9/09/2009). A mulher então olhou para o fruto: seria bom de comer, era atraente para os olhos, desejável para obter conhecimento. O medo da morte já tinha ocupado a mente dela, dominada por uma sugestão e nova visão da realidade, onde não haveria mais limites. E comeu, e no mesmo instante a esperança da imortalidade foi transformada no medo compulsivo da morte e na série monótona de pecados a ela conexos.

O medo da morte gera o amor de si mesmo (em grego philautía), o amor próprio, que nos faz ver somente nosso interesse: não queremos morrer, mesmo que isso custe matar a Deus, o outro e a natureza. Para vencer o medo da morte servem todas as armas colocadas à nossa disposição pelo diabo, o desagregador. O limite posto por Deus para que existíssemos livres de escravidões é transmutado em negação de qualquer limite como sinal de liberdade, levando à escravidão de si. Essa, uma vez gerada dá à luz o pecado e o pecado, atingindo a maturidade, gera a morte (cf.Tg 1,15).

O Novo Adão, Jesus, assumiu toda a condição humana, menos o pecado, e por isso sem o medo da morte. Como o Velho Adão, no deserto foi tentado pela mesma Serpente: transformar pedra em pão – o que seria bom para comer, possuir os reinos da terra – o seria bom para obter conhecimento/domínio, ser atraente aos olhos da multidão – saltando do pináculo (Mt 4,1-11). Diferentemente de Eva, a auto-sugestão não entra em Jesus, e ele vence a tentação na fidelidade expressada pela Palavra de Deus: a cada tentação, uma Palavra da Escritura: não só de pão vive o homem (Dt 8,3), só a Deus adorarás (Dt 6,13), não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6,16). A Palavra de Deus, colocada no coração, sede das tentações, é remédio sempre eficaz.

No alto da cruz, novamente é tentado: “Salva-te!” “Salva-te a ti e a nós” (Lc 23, 37.39). E Jesus renova sua fidelidade a Deus, o Pai, em cujas mãos entrega o espírito: não veio salvar sua vida, mas dá-la em resgate por muitos.

A ânsia de imortalidade, onipotência e onisciência fazem considerar o mundo exterior como posse. E surgem no ser humano a voracidade da carne (todo desejo é necessidade impulsiva, egoísta), a concupiscência dos olhos (em tudo procura ver a utilidade para si) e a ostentação da riqueza (poder e glória a qualquer custo): é a sedução do mundo ((1Jo 2,15-16)).

Tudo conduz à compulsão pela posse, à mania mortífera de “tudo e logo” a qualquer custo, à morte de si: o medo original de morrer conduz inevitavelmente à morte de si, pois a solidão toma conta da vida.

Se o medo da morte nos faz cair de tentação em tentação, temos no caminho de Jesus o retorno à vida: Jesus, sendo Deus – imortal – assume a condição humana, desce ao mais profundo da miséria humana (kénosis), menos o pecado e dá a vida por nós e, na sua vitória sobre a morte, nos faz participantes de sua imortalidade (Fl 2, 6-11).

Como resposta a Satanás, como resposta à fidelidade do Filho, o Pai o ressuscitou dos mortos e nele também nos ressuscita.

O diabo tem o domínio da morte (Hb 2,14): todo pecado é uma tentativa frustrada de enfrentar esse medo; junto com a Palavra de Deus, a arma mais eficaz para conduzir essa luta espiritual é a fé na ressurreição. Canta um hino ortodoxo que Cristo ressuscitado açoitou a morte com a morte, destroçando-a. Participamos da vitória pascal de Cristo, nosso pedagogo: ele não nos deixa sozinhos na batalha contra a Antiga Serpente, mas sabe sofrer-com as nossas fraquezas, pois ele também foi tentado em tudo. Conhece o poder do mal, ensina-nos a não cair em tentação (o medo da morte, o rei dos medos). Ele é nossa rocha, aquele que nos treina na a batalha da vida fiel.

Agostinho nos exorta: “Tu te preocupas porque Cristo foi tentado e não percebes que ele venceu? Nele também tu és tentado, e nele terás a vitória” (In Ps 60,3).

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