A UNÇÃO EM BETÂNIA E OS GESTOS DE AMOR

A mulher unge os pés do Senhor – Mosaico do Centro Aletti – Vaticano

Em janeiro de 1982 tive a graça de encontrar-me com Irmã Dulce, o Anjo Bom da Bahia. Ela estava muito feliz pela inauguração das novas instalações do Hospital Santo Antônio, dotado do conforto de um hospital moderno. Perguntei-lhe o porquê dessa opção pelo melhor, que seria mais custosa e ela respondeu: “Senhor padre, os pobres são os preferidos de Deus; ele fica chateado se a gente não lhes oferece o melhor”.

Esse fato veio-me à mente ao ler a unção de Betânia, na casa de Simão. Jesus estava sentado à mesa, veio uma mulher com um frasco de alabastro cheio de perfume de puro nardo, muito caro. Ela o quebrou e derramou o conteúdo na cabeça de Jesus. Alguns que lá estavam ficaram irritados e comentavam: “Para que este desperdício de perfume? Este perfume poderia ter sido vendido por trezentos denários para dar aos pobres”. Jesus, o amigo dos pobres, dá razão à mulher: “…Ela praticou uma boa ação para comigo. Os pobres sempre tendes convosco e podeis fazer-lhes o bem quando quiserdes. Mas a mim nem sempre o tereis. Ela fez o que estava ao seu alcance. Com antecedência, embalsamou o meu corpo para a sepultura” (cf. Mc 14, 3-9).

Naquele momento, Jesus era também um pobre e sofria muito, pois estava chegando a hora de sua Paixão. Ele foi confortado com o gesto de carinho daquela mulher. Durante os anos de sua vida pública, sempre fizera o bem aos outros: agora, no momento do maior bem que faria, a crucifixão, alegrou-se que alguém lhe fizesse um gesto amoroso, desperdiçando perfume com ele.

Nós achamos que pobre não merece atenção especial, uma roupa melhor, uma comida mais bem preparada, um conforto: basta dar-lhe o que o impede de morrer. Reclamamos que pobre tem televisão, celular e ainda se arroga a pedir socorro. Pobre não merece nada além de viver nas bordas da morte? Dom Helder respondeu a quem lhe disse que a esmola que dera a um mendigo seria usada para outra finalidade: “Então pobre não pode nem mentir?”.

No banquete em casa de Simão havia tudo, menos preocupação com os pobres. Esses banquetes eram assistidos pelos pobres, que ficavam encantados com a comida e as conversas de gente importante. Sobrava-lhes competir pelas migalhas com os cachorros. Por isso mesmo, a súbita reclamação pelo desperdício não era compaixão, era sovinice. Cada um daqueles que reclamou poderia oferecer algo aos pobres: nenhum o fazia. Judas muito menos, ele que por dinheiro entregaria seu Mestre e amigo. Em João, 12 (1-8), é Judas que reclama do desperdício, e o Evangelista diz que o fez porque era ladrão. Não consta que Judas tenha usado as trinta moedas da traição para ajudar os pobres…

Os pobres edificam catedrais com suas esmolas, ricos reclamam do desperdício. Os pobres gostam que Deus possa ter uma casa bonita; muitos ricos acham que para Deus qualquer coisa serve. São sovinas até com Deus.

Esse tipo de discurso contra o pobre, o marginal, simboliza muito mais o apego ao que se possui do que um lance de misericórdia. Aqueles que amam os pobres nutrem por eles um imenso respeito, pois ecoam em seus ouvidos as Bem-aventuranças dos pobres, porque deles é o Reino dos céus. Jesus aceitou ser tocado por eles, tocava-os com carinho, sentia felicidade em estar no meio deles, mal amados do mundo mas prediletos do Pai.

A mulher de Betânia agiu por puro amor: o perfume era caríssimo, o vidro precioso era muito caro. Ela quebrou o vidro, para que não sobrasse nenhum perfume de nardo e o vidro fosse reutilizado.. Era um desperdício, sim, mas amor sem desperdício de gestos amorosos não é amor. Como mulher, ela teve a sensibilidade de perceber o sofrimento na face do Senhor, ela percebia como ele era tratado com ambigüidade. Convidavam-no para banquetes não por amizade, mas para apanhá-lo em contradição e assim dar cabo de sua obra.

Outra mulher sentiu tanto amor pelo Senhor que lhe lavou os pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Nenhum temor, nenhuma vergonha nesse gesto exposto à crítica. Tinha certeza de que Jesus, o pobre dos pobres, também queria sinais de amor (cf. Lc 7, 36-50). E a mulher queria mostrar toda a gratidão que sentia por esse homem que a acolhia sem nada lhe perguntar, enquanto outros apenas riam de seu passado.

O cristão se revela nos gestos de amor, na delicadeza desses gestos. Antes de ajudar um pobre, ele o respeita, o ama, com cuidado, pois é o preferido de Deus.

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