A MODERNIDADE, OU, TANTAS ALMAS ESTICADAS NO CURTUME

Solidão e intimidade – Antoni Music – 1996

Esse verso cantado por Caetano Veloso em “O Ciúme” serviu-me de inspiração para contemplar muitas vidas transformadas em exposição desnecessária de corpos e almas: “Tantas almas esticadas no curtume” parece muito bem expressar a miséria a que se pode reduzir a vida humana e seu mistério. “Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê / tanta gente canta, tanta gente cala”, continua o poeta.

Tantas almas esticadas no curtume

Hoje querem desnudar tudo, nossa intimidade, os mistérios que possibilitam que a vida seja preservada. E vemos os espetáculos dos BBB da Globo, do A FAZENDA da Record, onde nada se guarda, o pudor é defeito, tudo é revelado com o termômetro do escândalo. E vemos atores, atrizes, modelos, gente VIP alvoroçados para serem entrevistados sobre sua vida íntima, num presumido “jogo da verdade”. O que importa é chamar a atenção para aquilo que é estranho, escandaloso até, como que a dizer: “Vejam, aqui está minha vida, meu segredo. Perguntem mais, quero dizer tudo sobre minhas cirurgias estéticas, meus amores, minhas taras, passem por cima de mim, destruam-me, porque sem destruição não serei objeto de comentários, de capa de revista, de entrevistas televisivas, de um gordo prêmio para lançar minha carreira!”. Quero “acontecer”!

Ser VIP (Very Important Person)  descamba, na verdade, em NIP (No Important Person). Nossa importância é um segredo guardado a sete chaves e nunca revelado em público. Já a alma VIP é esticada no curtume do espetáculo, torna-se couro sem vida, colorizado ao gosto de quem quer passar por cima. Essa “alma-couro-esticado” é estendida no asfalto quente/frio por onde passam os carros da moda, dos escândalos, da fama que se converterá em dor, em droga, em morte.

É sintomática a morte de tanta gente bonita, famosa, rica, tanta gente rica de dons, de sucesso se refugiar nas drogas. Privaram-se de sua intimidade e, nus, o jeito que encontraram para ter algum tipo de alma foi a receita médica de anfetaminas, ansiolíticos, antidepressivos para uma vida turbinada à droga. E a receita é consumida aos montes, à proporção da angústia da procura da alma, de alguém que os ame como pessoas e não os admire como couro esticado estendido no asfalto por cima de onde se passa, se ri, se busca mais. É insaciável a curiosidade pelo escândalo, pelo íntimo.

Somos feitos para os abismos profundos da intimidade

“Quando entrares no teu quarto (= na tua intimidade), fecha a porta e teu Pai, que vê o que está em segredo, te recompensará” (cf. Mt 6, 6-18). É do abismo profundo que clamamos a Deus (cf. Salmo 129, 1) e tem início o eu pessoal. Ali, Deus entra somente com nossa permissão. Aliás, nem entra: ele ali está, nos mais escondidos precipícios de nossa alma, como fiador de nossa existência.

É nesse segredo que nossa vida se torna projeto, diálogo, se define nosso rosto. Deus vê esse segredo guardado em nosso abismo profundo porque esse mesmo segredo esconde nossa imagem e semelhança com ele. Somente ele, que se conhece, nos reconhece. Ele, que conhece a sua e nossa voz, reconhece nossos vagidos de criança assustada, o grito do entusiasmo juvenil, a descrição de projetos adultos, a inspiração do artista, o gemido inseguro do idoso enfraquecido.

É nas grutas de nosso abismo pessoal que Deus vê escondidos e esconde nossos anseios humanos, a vontade de amar e ser amado, as dores das rejeições, as feridas saradas, mas que ainda requerem curativos. A ninguém o revela, pois ouve/vê no segredo.

Mas, se abrirmos sem pudor as comportas de nossa intimidade, aquilo que era segredo vital, razão de nossos passos, se transforma em alimento estragado que vomitamos para o deleite dos amigos dos vômitos, do sangue escorrido na lama, da infecção escarrada. Sobrará um couro bonito, fofo, mas batido, seco, esticado para servir de tapete ou de asfalto para as locomotivas da vida.

Expondo na ribalta do mundo nossa intimidade pessoal nos tornamos nosso pior inimigo. Vamos nos construindo à medida em que diligentemente nos desconstruímos, e acordamos a morte que nos espreitava.

Nosso caminho feliz está em nos recolhermos ao nosso quarto, fechar a porta e estabelecermos amizade franca com aquele que se oferece à nossa amizade, o Senhor residente em nossas profundezas. Nossas almas não são couro esticado em curtume, mas pessoas que se criam no silêncio e que se abrem delicadamente a outras almas forjadas no segredo, por isso amigas com quem podemos confidenciar e crescer.

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  1. #1 por Alexandre em 15 de fevereiro de 2010 - 12:10

    Salve, caro amigo!
    Li seu artigo. Concordo consigo que nossa alma é o segredo de nossa existência. O silêncio é o grito mais árduo de humanização. Só os grandes são capazes.
    Obrigado pelo escrito!
    Continue partilhando seus pensamentos!
    Um abraço
    Alexandre

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