A ACOMODAÇÃO É NEGAÇÃO DOS DONS RECEBIDOS DE DEUS

Mundanidade (Aroldo Bonsagni – 1910)

“Quanto ao servo inútil, lançai‑o lá fora nas trevas” (Mt 25,30).

Na parábola dos dez talentos, temos dois elementos para a nossa reflexão. O primeiro, a declaração que o senhor foi viajar e entregou os talentos aos servos, a cada um de acordo com sua capacidade. O segundo, sua ira, ao ver que um dos servos tinha enterrado o talento, com medo de perdê‑lo (Mt 24,14‑30).

A viagem do senhor simboliza a confiança de Deus em seus filhos. Entrega‑lhes a criação para que a dominem, a desenvolvam. Não os deixa de mãos vazias: dá‑lhes a capacidade e os dons necessários. Por causa dessa confiança, o destino do mundo é inseparável do empenho humano. Não podemos reclamar de Deus o que devemos reclamar de nós. Se plantarmos vida, colheremos vida; se plantarmos morte, a morte será a colheita. É mais cômodo perguntar: “Por que Deus permite tanta fome no mundo?” O correto, porém, é que dirijamos a pergunta a nós: “O que estamos fazendo para que tanta gente sofra?”.

Cada pessoa assume, a seu modo, a responsabilidade pela vida e pelo mundo. Há daqueles que não descansam: enfrentam todos os desafios. Desenvolvem ao máximo suas capacidades. Encaram a vida como uma tarefa.

Há outros que nascem, crescem, e morrem satisfeitos. Pouco acrescentam a si e ao mundo. Guardam o talento, e bem guardado, para não se incomodarem. Sentem‑se derrotados, e se conformam com a própria sorte. Acham que seu destino é este. Confundem a preguiça com o grande destino humano que é a busca da perfeição e da comunhão com o homem e com Deus. Esse sim, é o destino que Deus nos traçou!

O ser humano não pode se acomodar; muito menos o cristão. Se existe aposentadoria no mundo civil, não existe na vida. Jamais podemos dizer: “ dei o que podia. Agora vou é descansar”… E enterramos os talentos, à espera da morte.

Como é bela a vida das pessoas que nunca se acomodam, que sempre buscam a perfeição pessoal, a perfeição do mundo! Foi porque alguém não se conformou com as lâmpadas a gás, que se descobriu a energia elétrica. Foi porque alguém não se conformou com tantas crianças portadoras de deficiências, que o Dr. Sabin descobriu a vacina contra a paralisia infantil. Foi por amor que, após se aposentar, Dra. Zilda Arns deu início à Pastoral da Criança: salvou, somente no Brasil, 1.700.000 crianças! Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá, poderiam viver tranqüilas em seus conventos, fazendo suas orações. Não se contentaram com o cumprimento do dever, e criaram grandes obras de assistência social cristã. E assim, tantos outros. Os inquietos com a vida enriquecem o mundo. Nunca dizem “Basta!”.

O servo que escondeu o talento até que foi correto: devolveu direitinho o recebido. Não tinha maiores ambições do que cumprir o dever de guardar o que o senhor lhe tinha confiado. Jesus, porém, o chamou de inútil e preguiçoso. Nada acrescentou ao recebido. Conformou‑se em cumprir o dever. Viveu sem ideais. Viu o mundo, as pessoas, mas nada achou que poderia fazer. Achava‑se incompetente. Viveu para si.

Às vezes, é bom que nos façamos a pergunta: “Se eu morrer hoje, alguém, fora minha família e meus amigos, sentirá falta? Minha comunidade perceberá que ficou um vazio na sua organização? Minha ausência deixará o mundo mais pobre, ou nem será notada?”. Seria muito triste se também eu for declarado preguiçoso e inútil pelos outros. Muito pior ainda, se por Deus…

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