ZILDA ARNS E OUTRAS MULHERES EM DEFESA DA VIDA

Zilda Arns

Quando em 1755 um terremoto, seguido de maremoto e incêndio destruiu Lisboa, Voltaire perdeu a fé e num poema atacou Deus, que não zela pelo mundo porque não existe. No ano 70 de nossa era, o exercito romano comandado por Tito destruiu a santa cidade de Jerusalém, incendiou o Templo, e um velho rabino respondeu a quem o acompanhava desolado: “O Templo foi destruído. Não haverá outro. O Senhor quer que nós o adoremos no coração de seus filhos”.

Duas atitudes diante do mesmo drama das catástrofes causadas ou pela natureza ou pelo agir humano. Assim, o terremoto que assolou a capital haitiana, Porto Príncipe, em 12 de janeiro pp., também nos coloca diante de um desafio à seriedade de nossa fé. Causou grande impressão em muita gente o Crucificado contemplando a montanha de destroços. Um crucifixo enorme é a única lembrança intocada nos destroços da igreja Sacré Coeur de Tugeau. Dra. Zilda Arns e os ouvintes de sua palestra estavam lá dentro e não sobreviveram. Cremos que esse Crucifixo testemunhou a última prece de Zilda antes de falar na Pastoral da Criança, conservando o mesmo sorriso em qualquer circunstância, pois não vivia dramas e sim a alegria de poder promover novas iniciativas pela Vida. Sorriso diante de uma criança salva, sorriso diante de uma criança a ser salva.

Zilda Arns Neumann compõe a trindade das grandes mulheres que viveram décadas entre o lixo humano produzido pela injustiça humana, não divina, e sempre conservaram o sorriso: Irmã Dulce da Bahia (1914-1992), Madre Teresa de Calcutá (1910-1999), Dra. Zilda Arns do Brasil (1934-2010). Três mulheres que engrandecem o gênero humano: completamente esquecidas de si, promoveram e defenderam a vida sem nunca ceder a tentações de revolta, defesa do aborto, crítica às famílias numerosas dos pobres. O que lhes interessava era a pessoa real, concreta que tinham diante dos olhos e imediatamente brotava-lhes um imenso sorriso: podemos salvá-la, conservar-lhe a vida. Deus quer essa vida, nós também a queremos.

Sua profunda fé cristã e católica dilatou os espaços da maternidade e seus ventres recebiam e alimentavam todos os sofredores que depois davam à luz e permitiam-lhes contemplar a Luz. Multiplicaram os espaços do amor sem reservas. Irmã Dulce no Hospital Santo Antônio de Salvador, Madre Teresa nas inúmeras obras que semeou pelo mundo, Dra. Zilda nas milhares de voluntárias que congregou na pastoral da Criança e do Idoso.

As três nasceram e foram criadas num lar católico (Zilda tem dois irmãos franciscanos e três irmãs religiosas), tiveram a graça de viver em paróquias de profunda vivência evangélica. Feliz a Igreja que as gerou, felizes essas mulheres que puderam receber o compromisso do amor na Igreja.

Zilda Arns

Suas obras foram fruto da grandeza da fé, não da propaganda. Sabiam que o Cristianismo é obra de grandeza e não de espetáculo. Irmã Dulce adaptou um velho galinheiro, recolheu pobres e saía pelas ruas com um cesto vazio que retornava cheio de pão. Madre Teresa foi para as ruas de Calcutá com um sari, um chinelo, uma pequena maleta. Zilda Arns olhou para o mundo desenvolvido, cheio de técnicas e planejamentos, cheio de assessores e recursos mal usados e apresentou sua receita para as crianças: uma balança, uma régua de medir, multimixtura de farelo de arroz, de trigo, de sementes, de cascas de ovo. Tem-se o número de 1.700.000 crianças salvas por essa estranha medicina. Estranha, não, pois era medicina pobre, mas temperada com rico amor. Grandes sábios quiseram processar voluntárias que aconselhavam o acréscimo de um prego no cozimento de feijão. Para essas mentes científicas, a obra da Pastoral da Criança cheirava a charlatanismo. Dra. Zilda continuou sorrindo, seu sorriso abraçou os Estados brasileiros, países da América latina, da África.

Seu sorriso moldado pelo bisturi do amor e da esperança chegava ao Haiti. No meio da imundície da capital haitiana, dos homens vivendo na lama, em esgotos, de pobres vendendo o sangue para laboratórios norte-americanos, sua palavra de amor foi cortada por violento tremor de terra. Nessa hora ela não teve privilégios: sua vida foi ceifada com a de bispos, padres, seminaristas, pobres, ricos.

No meio dos destroços um homem quis, mais uma vez, participar desse destino: o Cristo que habita o Crucifixo da igreja Sacré Coeur de Tugeau. Jesus teve pressa: queria morrer com Zilda, com todos, para infundir-lhes a semente da ressurreição. E de nós, fazer uma cruz imensa, cósmica, que inclua todos os sofredores  da terra e na qual aceitemos ser crucificados por amor, com o sorriso de Dulce, Teresa, Zilda, para dar-lhes vida.

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