JOÃO PAULO II, VENERÁVEL SERVO DE DEUS

Bento XVI autorizou no dia 19 de dezembro de 2009 a publicação dos decretos que reconhecem as virtudes heróicas dos papas João Paulo II e Pio XII, que deste modo passam a ser reconhecidos como “veneráveis” pela Igreja. Agora faz-se necessária a aprovação de um milagre para a beatificação. Esse primeiro passo é fundamental, pois significa que o Venerável viveu em grau heróico as virtudes cristãs, especialmente da fé, esperança e caridade. Nesse primeiro momento convida-se o povo de Deus a contemplar esses irmãos, os Papas Pio XII (1939-1958) e João Paulo II (1978-1995) como modelos de vida cristã, de discipulado cristão.

Na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte de 6 de janeiro de 2001, o Papa João Paulo II nos convidava a contemplar a face de Cristo na profundidade do mistério que os Evangelhos nos revelam, de modo especial a face de Cristo Crucificado e Abandonado, no seu grito angustiante e na sua glória sem fim (nn. 16-28). Um programa para a Igreja e para cada cristão neste século que então iniciava a balbuciar. Sua experiência pessoal, na dor e na doença, demonstrou a coerência entre suas palavras e sua vida carregando a Cruz com o Senhor.

Na Sexta-feira santa comovia ver a figura dolorosa do Papa segurando e contemplando a Cruz do Senhor durante a Via Sacra no Coliseu. Dois amigos no abandono total de amor, Cristo por livre decisão por nós, o Papa por livre aceitação por si e pela Igreja. Cristo crucificado e abandonado, o Papa crucificado, mas recebendo forças do seu Senhor e Mestre. Cristo, sentado na Cruz, seu glorioso trono de amor, o Papa preso a uma cadeira de rodas, a face devastada pela dor, mas sentindo-se revigorado por aquele cujo nome gritou na Praça de São Pedro, em outubro de 1978: “Povos do mundo, não tenhais medo de Cristo!”. E este polonês escolhido para o Trono de Pedro deu provas de não ter medo de Cristo e de sua Cruz: como catequista anunciou-o nas audiências semanais das quartas-feiras; como pregador, anunciou-o no Ângelus do meio-dia de domingo; como cruzado da fé e da paz, anunciou-o em suas 104 viagens apostólicas. Anunciou-o nos numerosos documentos, sínodos, cartas, encíclicas, audiências.

Mas, anunciou-o de modo mais concreto com sua vida. O Papa doente de 2005 não era o jovem Papa que em 1978 atravessava a Praça de São Pedro conclamando o mundo a não ter medo de Cristo, a abrir-lhe todas as portas. O Papa prisioneiro da doença foi do mesmo modo o evangelizador de multidões.

Karol Wojtylla não era um executivo de empresa, o gerente do Estado do Vaticano: a Igreja é mistério, Corpo de Cristo e Povo de Deus. Transcende infinitamente a dimensão burocrática à qual queremos reduzi-la e à qual muitos burocratas eclesiásticos tentam prazerosamente resumi-la. Sua vida era também seu ministério petrino.

Na doença do Papa o Espírito que falou às Igrejas nos revelou uma outra face do pontificado romano: a paternidade espiritual, a paternidade da cruz oferecida pela Igreja e pelo mundo, tão ou mais eficaz do que a inteligência humana do governo.

Papa João Paulo II com a Cruz

João Paulo II alimentou um prazer imenso de ver o povo e de ser por ele visto. Também na doença queria ver o rebanho aflito e por ele ser contemplado. João Paulo II, testemunha qualificada das dores humanas de todos os matizes e credos, das hecatombes do nazismo e do comunismo, que fez suas as dores do ser humano onde quer que se encontrasse, que sentiu na carne o que é ser atravessado por projéteis do terror, que sente a inexorabilidade do morbo incurável, revela sua face solidária e paterna com todos os sofredores do mundo.

Foi ele que insistiu na dimensão do viver a descoberta do Jesus Abandonado, como experiência de vida humana e divina e, portanto, do fazer-se um conosco e com o Pai, com todas as conseqüências: o esvaziamento de cada um de nós para o dom total de si, para ser um no amor.

Uma dimensão de sua vida talvez seja o maior legado que transmitiu à Igreja: o perdão, a penitência pelos pecados de cada cristão e de toda a Igreja. O centro as celebrações do 3º Milênio foi a Liturgia do Perdão na Basílica de São Pedro, em março de 2000: assumindo o peso de dois mil anos de história da Igreja Católica, pediu perdão pelos pecados da Inquisição, do colonialismo, da intransigência, do desprezo pelas minorias, da aliança com o poder, do uso do poder. O Papa perdoou a todos os que perseguiram os cristãos, e pediu perdão em nome de todos os cristãos.

Não foi fácil a um homem que carregava nas costas a tradição de glórias e lutas de 20 séculos, de heroísmo e santidade, proclamar “Nós pecamos!”. Ele realizou esse gesto contemplando o Cristo crucificado, o Cristo que deu a vida por todos, nunca matando.

Felizes nós a quem foi dada a graça de conhecê-lo, ouvi-lo. E agora, é-nos dada a graça de chamá-lo de Venerável João Paulo II.

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