A MISSÃO CRISTÃ

Irmão Cristiano, Irmão Celestino, Irmão Paulo, Irmão Cristóvão, Irmão Bruno, Irmão Miguel e Irmão Lucas

Irmão Cristiano, Irmão Celestino, Irmão Paulo, Irmão Cristóvão, Irmão Bruno, Irmão Miguel e Irmão Lucas

No ano de 1938 um grupo de Monges trapistas franceses fundou a comunidade monástica de Nossa Senhora do Monte Atlas, em Tibherine, Argélia. Situados num país muçulmano, sem permissão de realizar conversões, esses homens de Deus tinham como sentido de sua presença estar junto dos muçulmanos, acolhê-los, conversar, colocar em comum os dons. E a oração comunitária, tanto na intimidade monástica como com os irmãos que invocavam Alá.

No dia 23 de maio de 1996, após dois meses seqüestrados, os sete Monges trapistas foram assassinados. Sobraram os edifícios brancos no Monte Atlas, cheios da presença espiritual desses homens de Deus. A Ordem trapista francesa logo se empenhou em enviar novos monges, pois a Missão não poderia terminar por causa da morte, do medo.

Tudo isso não encontra explicações aos olhos do mundo, e nem de muitos cristãos. O martírio dos missionários, porém, é um dom, é uma experiência concreta do projeto de amor que Deus tem pela humanidade. O sangue que penetrou a terra argelina dela fará brotarem flores de paz. O sangue dos missionários é esperança de paz para o mundo.

Durante os dias de seqüestro, o Irmão Cristiano de Chergé, Pior do Mosteiro, redigiu seu Testamento e, nele, lembrou com carinho aquele que o mataria: “Também a ti, amigo do último minuto, que não sabias o que estavas fazendo, sim, também para ti quero dizer um muito obrigado e um a-Deus contigo. E que nos seja dado reencontrar-nos, ladrões bem-aventurados, no paraíso, se agradar a Deus, Pai nosso, de nós dois.”

Dois anos antes, em abril de 1994, o Irmão Lucas, monge médico, escrevera a um amigo, também médico, em Lyon: “É através da pobreza, do fracasso e da morte que caminhamos ao encontro de Deus”. O sete mártires do Monte Atlas, tão antigos e tão modernos, estavam disponíveis para condividir até a morte todas as alegrias e dores, angústias e esperanças, e a doar inteiramente a vida a Deus e aos irmãos da Argélia.

Três anos depois, em maio de 1999, coube a Dom Pierre Claverie, bispo de Oran, também na Argélia, sofrer o martírio. Entusiasta do diálogo cristão-muçulmano, fecundou com sangue, como os sete trapistas, o solo amado que num dia foi também de Santo Agostinho, de Charles de Foucauld.

As missões da Igreja obedecem à palavra do Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). O Evangelho, como tão evidente era para Paulo, não é uma doutrina, uma estrutura, concentrações, organizações: o Evangelho é uma pessoa, Jesus. Jesus que nos trouxe a Boa Notícia de que seu Pai é nosso Pai, e é Pai dos humildes, dos doentes, dos pecadores, dos perseguidos e perseguidores. Jesus é o narrador do Pai, o missionário é outro Jesus narrando o Pai. Aqueles missionários frágeis e fragilizados pelo ambiente eram a narração viva do Evangelho para os muçulmanos: “Querem conhecer aquele em quem nós cremos? Olhem nossa vida!”.

Jesus, o pobre da Galiléia, não pode ser anunciado coerentemente com meio ricos. Sua vida que narra o Pai somente é compreendida através dos meios pobres que são marcados pela cruz: a dor, o joelho dobrado em adoração, o silêncio, a oração, a contemplação, o jejum, a obediência, o sofrimento. Não permitem medições estatísticas, não dão manchetes, são marcados pelo silêncio humilde; são os meios preferidos de Deus, são os meios que tocam o coração de Deus (cf. J. Maritain, Filosofia da História, 1957).

Há sete séculos, afirmava Santo Tomás de Aquino: “O fruto da vida ativa é proporcional à plenitude da vida contemplativa”. Em outras palavras: sem a retaguarda da oração, a mais pobre dos meios pobres, a ação pastoral e evangelizadora nos deixará felizes, com a sensação do dever cumprido, mas não implantará no mundo o Reino de Deus.

Se a missão da Igreja se apoiar nos meios ricos da persuasão, da palavra bem falada, da autoridade impositiva, como já foi em outros tempos, causará impressão, será motivo de congratulações aos olhos do mundo, mas estará ocultando o Pobre de Nazaré, estará ocultando o Pobre Deus. Será inútil.

Talvez o Senhor não nos tenha concedido a graça da missão, do testemunho em terras distantes, mas nos dá sempre uma graça imensa: viver o Evangelho, ser Jesus em meio aos de Jesus, revelar a face do Pai aos que nos cercam, aceitar a violência do desprezo, do ódio, da concorrência do sucesso.

Como cristãos e cidadãos, viver a missão da paz e da reconciliação. Retornando ao Mosteiro do Monte Atlas, uma palavra escrita pelo Irmão Lucas às vésperas do seqüestro: “Não penso que a violência possa extirpar a violência. Não podemos existir como homens a não ser aceitando fazer-nos imagem do amor como foi manifestado no Cristo que, justo, quis sofrer a sorte do injusto. A morte injusta de Cristo rompe a espiral infernal do ódio e dá vida a uma nova humanidade, animada pelo sopro do Espírito”.

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