RECONCILIAR-SE PARA UM MUNDO NOVO

«A Educadora»  (Massimo Campigli)

«A Educadora» (Massimo Campigli)

“Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos difamam” (Lc 6,27‑28)

Para um cristão, é impossível odiar, porque um cristão não tem inimigos. Desapareceu o objeto do ódio. O amor universal é parte inseparável da vida cristã. Talvez o amor aos inimigos seja o ponto mais difícil de toda a vida humana, inclusive a cristã. Já é grande vitória não responder a um desaforo com outro desaforo, fugir do “olho por olho, dente por dente”. Amar um inimigo, porém, causa repugnância à natureza humana, revolve todos os nossos sentimentos! Querer bem a quem sistematicamente nos quer o mal é muito difícil…

Mas, em palavras claras, Jesus exige isso dos cristãos. Não é conselho, é mandamento. Do alto da cruz, amaldiçoado por quase todos, derramando a última gota de sangue, ele ainda teve forças para suplicar: “Pai, perdoai‑lhes, porque não sabem o que fazem!” (Lc 23,34). A exigência foi transformada em exemplo extremo: ensinou e fez. Deu a vida pelos inimigos.

Este mandamento que fere a sensibilidade humana é fundamental na construção de uma vida nova, de uma nova sociedade. Não podemos construir um edifício de justiça sobre pedras entre as quais jazem sementes, por menos numerosas que sejam, de ódio, de maldição. Elas se aquietam, devido à força maior da justiça, mas, num dia, sorrateiramente, germinarão. E buscarão a vingança.

A política, por mais bem intencionada que seja, não pode ser conduzida às custas do ódio, do desprezo pelos adversários. A necessidade de justiça social, se manifestada no fomento ao ódio de classes, se concretizada produzirá vencedores e vencidos. Permanecerá a semente da desforra.

Em outras palavras, a conversão de estruturas de morte, de pecado, só será eficaz se tiver como contrapartida a conversão interior, que supõe a luta constante, sem ódio, sem ressentimentos. O homem que perdoa seu algoz constrói mais um companheiro. O sistema que perdoa aos que erram, terá energia para construir um novo edifício. Caso contrário, gastará as melhores forças no controle dos adversários.

O mesmo vale para a vida pessoal: se colecionamos desafetos, não teremos paz exterior e, menos ainda, interior. O ódio impede construções estáveis. Viver amaldiçoando quem nos maldisse acaba atraindo maldição sobre nós. E, o que é pior, o ódio não atinge a quem odiamos: prejudica apenas a nós. Muitas vezes, a pessoa nem sabe que a odiamos, e nós ficamos carregando a mágoa, o veneno.

Quando Jesus perdoou a Pedro, que o traíra três vezes, conquistou um Apóstolo, um homem novo que acabaria dando a vida de amor por ele. O perdão pode ser repugnante, mas seu fruto será sempre a serenidade da paz.

Mas, por que perdoar os inimigos? Por um motivo claro: porque Deus nos perdoa. Seremos mais exigentes do que Deus? O mesmo Deus que nos perdoa dá força para perdoarmos, se confiantemente o pedirmos na oração.

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