MOISÉS, O AMIGO DE DEUS

Moisés desce o Monte Sinai. Escultura em Madeira feita por Curt E. Teichmann - Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, Itajaí, SC.

Moisés desce o Monte Sinai. Escultura em Madeira feita por Curt E. Teichmann – Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, Itajaí, SC.

No dia 4 de setembro, tanto o calendário maronita como o ortodoxo e greco-católico celebram Moisés, a quem a Torá se refere como “amigo de Deus”. Quando, de modo particular refletimos a Palavra de Deus, faz bem recordar a figura central da Antiga Aliança, Moisés, a quem a Torá se refere como “amigo de Deus”. É nos montes que se revela sua amizade e intimidade com Deus, é lá que Deus se revela face a face. É nos montes Horeb, Sinai, Rafidim, Nebo que os dois amigos trocam confidências e falam de si e do Povo eleito. Viveu no século XIII AC e morreu antes de entrar na Terra da Promessa. Na Transfiguração do Senhor é ele e Elias que ladeiam Jesus, confirmando-o como o novo Moisés e o novo Profeta. Pela mão do Senhor ele deu ao povo pão e água no deserto: Jesus, o novo Moisés é a Água viva e o Pão da vida.

A missão divina de libertação do povo

Criado no palácio do faraó do Egito, Moisés se revolta com o sofrimento de seu povo. Num primeiro momento, age sem credenciais: matando opressores egípcios julga que, por ser do palácio do faraó, o povo o seguiria numa revolta pela libertação (cf. 2, 11-14). Teve de fugir para Madiã, onde se casou e tornou-se pastor de ovelhas.

Num dia subiu o Horeb e ali viu uma sarça em chamas, mas que não se consumia. Moisés quis se aproximar para ver a maravilha, mas a voz do Senhor clamou: “Moisés, não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos pés, porque este lugar é sagrado. Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó. … Eu vi a opressão de meu povo, ouvi o grito de aflição dele. Vai! Eu te envio ao faraó para que faças sair o meu povo do Egito!” (cf. Ex 3, 1-14). Nessa teofania Moisés tem a experiência do Deus vivo: ele é a frágil sarça tomada pelo fogo divino, que o queima, mas não o destrói. Deus assume sua fragilidade fortalecendo-o e lhe revela que está com ele: “Eu sou aquele que é, que está sempre presente”.

Agora, sim, recebe as credenciais, e Deus o conduzirá com o povo. Quando resolve voltar ao Egito, Moisés sente-se impotente e tem a tentação de desistir. Deus vai-lhe ao encontro e ameaça matá-lo (Ex 4,12). Texto estranho, mas que lembra a luta de Deus com Jacó: a luta com Deus o fortalece e lhe demonstra que essa luta é mais difícil do que todas as outras: quem poderá resistir ao Deus vivo? É a noite do espírito dos místicos.

Moisés, libertador e intercessor

Após atravessar o Mar Vermelho, Moisés canta, grato e exultante: “Minha força e meu canto é o Senhor, ele me salvou” (Ex 15,2). Moisés sempre mais se sente instrumento de Deus. Antes confortara o povo, garantindo-lhe que o Senhor o salvaria, combateria por ele. Podiam agora caminhar tranqüilos.

Quando o povo, faminto, bate continuamente à tenda, reclamando da falta de comida, Deus se irou. Moisés reclamou: “Por que tratas assim o teu servo? Acaso fui eu quem concebeu e deu à luz este povo, para que me digas: ‘carrega-o ao colo, como se fosse uma babá a levar uma criança…?’” (Nm 11, 11-12). E Deus assumiu sua responsabilidade e alimentou o povo com o maná e as codornizes.

Na guerra contra os amalecitas, em Rafidim, enquanto os soldados lutavam, Moisés subiu ao topo da colina e ficou de braços erguidos, invocando a proteção do Senhor. Era o orante.  Enquanto os braços estavam erguidos, Israel vencia. Como se cansasse, um homem de cada lado sustentava-lhe os braços até o por do sol, quando Israel venceu (cf. Ex 17, 8-16).

No monte Sinai recebe a Aliança. Ao descer, a decepção com o povo adorando um bezerro de ouro. Após um pecado tão grave, Deus se revela a Moisés como bondade, ternura, misericórdia: “Deus de ternura e de piedade, lento para a cólera, rico em amor e fidelidade; que guarda o seu amor a milhares, tolera a falta, a transgressão e o pecado” (cf. Ex 33, 6-7). Moisés imediatamente caiu de joelhos por terra e o adorou: “Senhor, se agora encontrei graça aos teus olhos, segue em nosso meio, conosco, mesmo que esse povo seja de cabeça dura. Perdoa as nossas faltas e os nossos pecados, e torna-nos a tua herança” (Ex 33, 9).

Quando Moisés desceu do Sinai, onde contemplara a glória do Senhor, sua face resplandecia a tal ponto que não era possível olhá-lo. Então cobria o rosto com um véu, que somente retirava diante do Senhor (cf. Ex 34, 19-35). Quem contempla o Senhor participa de sua luz, tem a face transfigurada.

A morte de Moisés

Moisés não entrou na Terra da Promessa. A obra é divina, não humana. Seu testamento espiritual, após realizar a missão de libertar, orientar e salvar o povo de Israel é um hino de bênção e de amor ao povo: “Feliz és tu, Israel! Quem é semelhante a ti, povo salvo pelo Senhor?” (Dt 33,29). Feliz, Moisés demonstra todo o amor pelo povo que o consumira, mas que era o Povo do Senhor.

A Torá se fecha com a narração de sua morte: “Moisés, servo do Senhor, morreu no monte Nebo, na terra de Moab, conforme o Senhor havia dito. E ele o enterrou no vale, na terra de Moab. Nunca mais surgiu em Israel profeta semelhante a Moisés, com quem o Senhor tratasse face a face, como um homem fala com um amigo” (Dt 34, 5.10).

Carinhoso com seu amigo, Deus cavou a sepultura e nela o depositou; e escondeu-a de modo que ninguém sabe onde está. O poeta alemão R. M. Rilke assim descreve a encantadora cena: “Então, lentamente, o velho Deus inclinou a velha face sobre o velho Moisés e com um beijo o trouxe para sua idade, eterna. E com a mão que criou o mundo recompôs o monte que escavara, deixando-o como os outros montes da terra, recriado, não mais reconhecível a nenhum homem” (A morte de Moisés).

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