PAULO VI, Sacerdote de Cristo e Papa do Diálogo

Papa Paulo VI (1963-1978)

Papa Paulo VI (1963-1978)

No Angelus de 2 de agosto de 2009, Bento XVI recordou, como modelo de figura sacerdotal, “a grande figura do Papa Montini, Paulo VI, do qual ocorre, a 6 de agosto, o trigésimo primeiro aniversário da morte”, homem de uma vida “profundamente sacerdotal e rica de tanta humanidade”.

No dia 3 de junho de 1963 falecia João XXIII, o Papa Bom e, num breve conclave, em 21 de junho, era eleito Giovanni Battista Montini, cardeal arcebispo de Milão. Ângelo Roncalli escolhera para si o nome de João, significando que ele, como João Batista, preparava e abria os caminhos do Senhor. Não era outro Cristo, era o preparador dos caminhos. Giovanni Montini assumiu o nome de Paulo: no nome incluía sua missão pastoral: ser apóstolo das nações, missionário e peregrino, viajar pelo mundo anunciando a mensagem do Senhor, estar aberto ao fascinante e trágico mundo, mostrando que o cristão é um especialista em humanidade. Assim como Paulo no areópago de Atenas, Paulo VI queria ser Paulo num areópago maior: o mundo.

Dois papas – João e Paulo – que contribuíram para substituir a imagem de Igreja-fortaleza e Igreja-museu por Igreja-jardim, passar da temporada das condenações para o remédio da misericórdia, pôr no centro da vida eclesial o serviço pastoral.

Papa Montini, filho de um deputado socialista de Brescia, teve a vida marcada pela sensibilidade aos dramas humanos em todos os seus aspectos de pobreza  e riqueza. No dia da entronização, usou pela primeira e última vez a tiara (tríplice coroa papal, indicando a dignidade real, imperial e sacerdotal): doou-a para que fosse leiloada e o dinheiro dado aos pobres.

Não quis ser um “prisioneiro” do Vaticano: “inventou” as grandes viagens papais: Filipinas, Uganda, Índia, Palestina, Nova Iorque, Portugal, Colômbia (onde inaugurou a Conferência de Medellín em 1968). Apresentou-se humildemente no parlamento mundial, a ONU, em 4 de outubro de 1965: “Meu nome é Pedro. … Nós não temos nada para pedir; nenhuma questão a levantar; unicamente um desejo a formular, solicitar a permissão de servir-vos naquilo que é de nossa competência, com desinteresse, humildade e amor”.

Sua grande obra, porém, foi levar adiante e concluir o Concílio do Vaticano II. Entendia o ardor da maioria e a dor da minoria. Em tudo, e sempre, buscou a maioria moral, a fim de que a renovação fosse de toda a Igreja.

Publicou a Carta encíclica Populorum Progressio (1967) sobre a justiça social cristã e a Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (1975) sobre a evangelização no mundo contemporâneo. Até hoje esses dois documentos orientam a ação da Igreja e inspiram os documentos papais.

Sofreu muito as crises na aplicação das reformas conciliares, especialmente o calo na vida religiosa: calcula-se que entre 1965-1984 desistiram 114 mil religiosos, 200 mil religiosas. A dor espiritual aumentava com a dor física (dizia-se que tinha uma péssima saúde de ferro) e emocional, quando assinava a laicização de sacerdotes: assinou 20 mil! Assinava-o chorando, ajoelhado diante do sacrário. Cada padre que deixava o ministério sacerdotal era, para ele, “um companheiro que nos abandona quando mais necessitamos dele”. Foi o preço pago pelo Pentecostes conciliar: o Espírito remove as seguranças e muitos padres, formados num outro espírito, sentiram a impossibilidade de continuar nesses tempos novos.

Papa Paulo VI e Patriarca Athenagoras de Constantinopla

Papa Paulo VI e Patriarca Athenagoras

Paulo VI era universal e ecumênico: levantou a excomunhão de 1054 contra a Igreja ortodoxa, abraçou e beijou o patriarca de Constantinopla, Atenágoras (1964), abraçou e beijou os pés de Arthur M. Ramsey, primaz da Igreja anglicana (1966). Quando de sua viagem à Uganda, para a canonização dos mártires africanos, foi profético e pioneiro na homilia: “…E não querendo também esquecer os outros que, professando a religião anglicana, sofreram a morte pelo nome de Cristo”. Isso em 1964! Todas as Igrejas participam, a seu modo, da santidade da única Igreja do Senhor. Antecipou a grande celebração das Testemunhas da fé cristã, promovida por João Paulo II no Pentecostes do Ano 2000.

Buscou derrubar os muros que isolavam a Igreja do dramas da sociedade, defendeu a liberdade de consciência e a dignidade humana.

Amava a literatura, as artes em geral, criou os Concertos musicais no Vaticano, trazendo maestros do porte de Von Karajan, Zubin Mehta, Carlo M. Giulini. Acreditava que as estradas do belo conduzem o homem à fé.

Era um privilégio participar de suas celebrações eucarísticas no Vaticano. Fragilizado pelas agudas dores reumáticas, artroses, era como que carregado através da basílica de São Pedro, tão concentrado em Cristo que não percebia a multidão que o saudava. Na hora da Consagração eucarística ele se transformava: seu rosto resplandecia, sua voz transformava-se num sussurro, ficava a sós com o Senhor em meio a milhares de pessoas. Transfigurado!

E teve a imensa graça de morrer em 6 de agosto de 1978, dia da Transfiguração do Senhor:  caminhava, resoluto, ao encontro da Luz do Monte Tabor. Nas últimas horas de vida repetia continuamente Pater noster, Pai nosso!

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  1. #1 por ricardo marques de almeida em 21 de março de 2012 - 20:43

    Sim, gosto e andava a procura deste texto já algum tempo. Excelente texto.

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