O CRISTO TRANSFIGURADO É O BOM JESUS

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Diz a sabedoria africana que “a mais longa e difícil viagem é a do cérebro rumo ao coração”, o que nos faz sofrer muito, pois estamos sempre racionalizando os acontecimentos, incapazes que somos de analisá-los com os olhos do coração. Nossa existência tem como fundamento o coração, o que contradiz a afirmação do filósofo Descartes, “penso, logo existo”. Se acharmos realmente que o pensamento é a base da vida, não conseguimos vivenciar o mistério central da fé cristã: “E a Palavra/Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1, 14). A palavra é a exclamação da carne dolorida ou feliz, vitoriosa ou derrotada, carinhosa ou enraivecida, por ela nosso coração se revela em plenitude. Deus feito carne em Jesus nos comunica tudo, e o Senhor se torna o narrador do Pai: toda a vida de Jesus é descrição da vida divina, é palavra viva.

No cristianismo, ao invés do que acontece com outras religiões e com a própria filosofia, não há lugar para a dualidade/divisão corpo-espírito. Isso é fruto do pecado que, dividindo o homem, transformou o corpo em objeto, em posse, a ponto de se afirmar “eu tenho um corpo, e dele faço o que bem entendo”. Então se reduz a vida ao pensar e ao libertar-se dos condicionamentos do corpo/carne. Com sua encarnação, Cristo quer restituir aos pecadores o próprio corpo: eu sou um corpo, não tenho um corpo! A distinção corpo-espírito é apenas transitória ou então um recurso para facilitar nosso raciocínio.

Na Comunhão eucarística nós recebemos o Corpo de Cristo, eficaz medicina. A cura do corpo é a cura da pessoa, recuperando sua unidade fundamental rompida pelo pecado e que nos faz querer o que não fazemos e fazer o que não queremos.

A festa litúrgica da Transfiguração do Senhor (6 de agosto) revela-nos o Senhor glorioso que se manifesta a Pedro, Tiago e João (Mc 9, 2-10). Mais resplandecente do que o sol, é o mesmo Senhor que em seguida revela sua identidade e realeza na Cruz: “Pai, chegou a hora. Glorifica teu filho, para que teu filho te glorifique” (Jo 17, 1). A identidade de Jesus é manifestada na carne doada para a nossa vida, na carne transfigurada pela doação total no amor, para que nossa carne também se transfigure no amor.

A alma popular vive a Transfiguração celebrando os passos do Bom Jesus na sua Paixão: festeja o Bom Jesus. Os pobres que vivem as Bem-aventuranças são mais capazes de ver o Bom Jesus na Transfiguração e o Transfigurado no Bom Jesus. Não separam a carne sofredora da carne gloriosa do Senhor transfigurado. É um só e mesmo Senhor, tão amado na piedade eslava como o Senhor da Humildade.

Os que vivem a pobreza evangélica “certamente conhecem a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo: de rico que era, tornou-se pobre por causa de nós, para que nos tornemos ricos, por sua pobreza” (cf. 2Cor 8,9; Fil  2, 5-11). Cristo veio oferecer-nos sua vida como dom, desse modo nos enriquecendo com sua pobreza. Todo dom significa empobrecimento para que o outro seja mais rico e, desse modo, nossa pobreza se torna riqueza no outro: o rico enriquece o pobre, e o pobre enriquece o rico. Desse modo, a pobreza é plenitude, não vazio. Assim, emprestando os olhos de Pedro, Tiago e João, contemplam o Cristo humilde e nele vêem o Cristo glorioso.

O Senhor que nos céus está à direita do Pai é o Senhor pobre, chagado e, por isso mesmo, glorificado pelo amor que nos doa, e o Pai se empobrece nos doando o Filho.

Não há outro caminho para nós, cristãos: ou nos enriquecemos tudo doando, ou permanecemos pobres conservando tudo. Isso se torna realidade a partir do momento em que nosso cérebro empreende a grande e dolorosa viagem rumo ao coração, em que o cálculo mesquinho da segurança pessoal dá lugar à abundância da generosidade. E sentiremos profundamente o amor divino que “ama a quem dá com alegria” (2Cor 9,7).

Ao afirmarmos que a Igreja é o Corpo de Cristo, afirmamos que ela não está em Roma, Jerusalém, Genebra, Constantinopla: a Igreja está não onde há sucesso, riqueza, prestígio, influência, mas onde é visível a pobreza de Cristo. É ali que Cristo faz a pergunta fundamental: “O que fizeste do teu irmão?”. Cristo é o mendicante que bate à porta: “Eis que estou à porta e bato (Apoc 3,20). Se o acolhemos, com ele ceamos e formamos a Igreja, seu corpo.

Entramos no espírito das Bem-aventuranças: quanto mais pobres forem os sinais cristãos, mais serão eficazes, pois Jesus valorizava os pequenos sinais: os pobres, os marginais, as crianças, a mulher pecadora… O Senhor transfigurado é sempre o Bom Jesus, o Senhor da Humildade.

Pe. José Artulino Besen

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