A Dimensão Sacramental da Coleta Eucarística

Partilhar o Pão com quem partilhou a Vida - mosaico do Centro Aletti.

Partilhar o Pão com quem partilhou a Vida – mosaico do Centro Aletti.

A Ceia cristã teve seu início inserida na Ceia judaica. Foi durante a Ceia pascal, sua última Ceia, ardentemente por ele esperada, que Jesus tomou o pão e o cálice, por eles deu graças, transfigurou-os em seu Corpo e Sangue e ofereceu-os em alimento.

A comunidade primitiva levou muito a sério a dimensão fraternal da Ceia, celebrada em casas de família, pois não havia, ainda, igrejas construídas. O chefe da casa convidava os irmãos na fé, oferecia-lhes um jantar e, no final, se dava graças pelo pão e o vinho. A liturgia eucarística era antecedida pelo ágape, banquete de amor, ceia fraterna e pela meditação da Palavra de Deus.

Houve abusos, como Paulo denuncia em sua Carta aos Coríntios (cf. 1Cor 11, 17-34): alguns convidados chegavam antes, comiam e bebiam tudo e, quando os pobres chegavam, não lhes restava alimento: “enquanto um passa fome, o outro se embriaga” (cf. 1Cor 11, 18-22). É esse o contexto do “comungar indignamente”: encher a própria barriga às custas da barriga vazia do irmão pobre. Infelizmente o moralismo cristão preferiu interpretar o “indignamente” (= desprezando seu irmão pobre) como estar com a “alma suja”, ter pecado contra a castidade, na maioria das vezes. É muito fácil ser casto: desafiante é ser justo. E assim se anuncia a dignidade para comungar identificada com o não ter atos pecaminosos, esquecendo-se do aspecto bíblico do ágape, do banquete fraterno. Essa admoestação de Paulo é o prólogo de sua narração da Ceia do Senhor (1Cor 11, 23-25).

Quando o número de cristãos tornou inviável o banquete, a ceia antes da liturgia eucarística, introduziu-se a procissão das oferendas: ninguém se aproximava da Mesa eucarística sem ter trazido dons, alimentos, para a mesa do irmão. Junto com o pão e o vinho apresentava-se a Deus azeite, trigo e outros gêneros alimentícios, que em seguida eram levados à casa dos irmãos pobres. Louvava-se a Deus pelos frutos da terra e a ação de graças era reparti-los. (Atualmente esse gesto foi transformado num tedioso enfeite de cachos de uva com espigas de trigo em Missas mais solenes)

A multiplicação do número de cristãos infelizmente tornou difícil também esse gesto. E introduziu-se a coleta, a doação financeira. O produto oferecido era transformado em alimento para a caridade cristã. Não se imaginava alguém não ofertar no recolhimento das ofertas, parte indissolúvel da Ceia fraterna.

Numa perspectiva bíblica não se pode separar a eucaristia do ágape fraterno, da ceia fraterna, do ato de oferta. Está em jogo o fundamento material, substancial do ato sacramental. Certo maniqueísmo prefere separar as realidades “sagradas” das realidades “materiais”. É a negação da sacramentalidade de toda a criação, pois todo Sacramento supõe a matéria que, pela ação do Espírito Santo, é consagrada: a água batismal, o óleo consagrado, o pão e o vinho, os noivos, a imposição das mãos.

Desse modo, a sacramentalidade da coleta eucarística transformou-se em mero símbolo, opcional e até descartável. O símbolo se resume em dar eventualmente a menor moeda, a menos valiosa cédula, ou não dar nada. Às vezes se chega a dizer que colocar a mão na cesta, sem nada oferecer, já é simbólico. Um meio de não ficar envergonhado por nada oferecer.

Outros dizem que sua oferta é o dízimo, por isso não deveria haver coleta, uma profanação, um negócio durante a Missa. Não misturemos as coisas: os cristãos davam o dízimo e participavam do ágape. São dois momentos, sendo a coleta até mais significativa e necessária. Em toda celebração eucarística deve haver coleta, em toda celebração eucarística devemos oferecer o óbolo, não simbólico de nossa ganância ou desleixo, mas símbolo de nossa generosidade e compromisso fraterno.

A Liturgia da Igreja anglicana recuperou e preserva a integridade desse gesto: durante a apresentação das oferendas o presidente da Celebração aguarda até que todos tenham dado a oferta. Colocada numa bandeja digna, é feito o tríplice Bendito sejais, Deus do Universo: ergue o pão, ergue o vinho, ergue a bandeja com as ofertas. Tudo é oferecido, tudo é consagrado.

Entende-se que há certa timidez em falar isso nas igrejas católicas. O dinheiro, sempre bem-vindo, é melhor chegar escondido e não estimulado, pois se ignora seu aspecto sacramental. É sacramento da comunhão, é gesto concreto da fraternidade. Podemos, com a coleta, tornar real a doutrina de São João Crisóstomo: “o sacramento do altar é o sacramento do irmão”. A oferta nos dá dignidade para comungar o Corpo e Sangue do Senhor.

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