O ÓSCULO FRATERNO E A COMUNHÃO CRISTÃ

osculo-fraterno

Diversos textos de Paulo e de Pedro recomendam aos cristãos: «Saudai-vos mutuamente com o ósculo santo» (Rm 13,12), «Saudai-vos uns aos outros com um ósculo santo» (Cf. Rm 16,16; 1Cor 16,20; 2Cor 13,12; 1Tes 5,26); «Saudai-vos uns aos outros com o ósculo fraterno» (1Pd 5,14). Como as Cartas eram lidas na Celebração da Eucaristia, nela encontra-se o sentido desse «ósculo santo»: é o ósculo litúrgico, símbolo de união. É o «ósculo de caridade» ou «beijo de amor» (1Pe 5.14).

Para situarmos a profundidade e o compromisso desse «ósculo santo» devemos nos remontar ao gesto da liturgia da Igreja apostólica e que prevaleceu até o século IV, sendo depois substituído por uma saudação fraterna que poderia consistir no aperto de mão, no olhar sorridente, no beijo na face. Todas as liturgias da Igreja conservam esse ósculo santo, o abraço da paz antes da comunhão.

A palavra ósculo vem do latim «os», que quer dizer boca. O «ósculo santo» era o beijo da paz que os cristãos se trocavam antes da comunhão e consistia no beijo na boca. Esse hoje estranho beijo na boca recebia o nome de «conspiratio» (respirar com), conspiração. Conspiratio é trocar entre si a respiração, o espírito, a vida. No momento do “ósculo santo”, através do beijo na boca os fiéis que iriam comungar se davam a vida, a respiração, o espírio-Espírito Santo.

Assim como Deus soprou sobre o homem e ele tornou-se um ser vivente, cada um recebe esse mesmo sopro divino e depois faz o outro dele participante. A comunhão das respirações unifica todos e, ao mesmo tempo, distingue: eu me torno «nós», e o «nós» se torna «eu». A união do espírito vital identifica a pessoa e, com ela, forma a comunidade.

Era um gesto revolucionário: pobres e ricos, homens e mulheres, judeus e gregos, escravos e livres, todos participavam de um e mesmo espírito, com o beijo santo derrubando todos os muros de separação. Isso era tão sério que o teólogo africano Tertuliano (ca.155-222) o criticava, pois obrigava as «ilustres damas da sociedade» a beijarem pobres, humilhando-as. Era essa, porém, a finalidade: para haver comunhão no Corpo e Sangue do Senhor não se podiam admitir distinções sociais ou econômicas. As Constituições Apostólicas de Hipólito (século IV) referem que os homens se sentavam de um lado, as mulheres de outro, pois tinham surgido abusos e, desse modo, perdia-se parte da riqueza do gesto de comunhão.

Cristo em todos e todos em Cristo

O «ósculo santo» criava a «comunhão», a comunidade, a ekklesia-Igreja. Na seqüência, preparando a comunhão, o que presidia a Eucaristia partia um pedaço do Pão e o mergulhava no Cálice: assim como o Corpo e o Sangue do Senhor estão unidos, os que receberiam a comunhão se tornavam um só corpo no Corpo do Senhor: Cristo em todos e todos em Cristo.

Seguia-se a comunhão: os que haviam realizado a conspiratio/ósculo agora conspiravam com Cristo, por ação do Espírito Santo. Os irmãos que trocaram a respiração, a vida, pelo poder do Espírito trocavam a respiração e a vida com o Senhor ressuscitado.

Retornando a seus lares, os cristãos viviam a comunhão eclesial, dispunham-se a trocar o respiro, a vida, com todos, especialmente os mais pobres. Muitas casas conservavam o belo e significativo costume de deixar um colchão e um pedaço de pão junto à porta de entrada para acolher algum peregrino ou faminto. A conspiratio eucarística era, desse modo, conspiração comunitária. Ninguém podia ficar ao desabrigo, pois todos estavam unidos num só respiro.

O Senhor ressuscitado soprava sobre os discípulos ao se lhes manifestar. Comunicava-lhes o Espírito vital para que depois, entre si, se dessem o ósculo santo.

O «ósculo santo» não se constituía em problema nos costumes semitas. Ainda hoje os árabes se saúdam com um beijo, às vezes na boca: com o sinal estão trocando a paz. Na cultura greco-romana o costume foi desaparecendo, mas não o rito: era impossível a comunhão sem a conspiratio: o «ósculo santo» foi substituído pelo abraço da paz, pelo encontro de faces. Sempre no sentido de comunhão de vida. A reforma litúrgica do Vaticano II reintroduziu o rito do abraço da paz, antes reservado aos presbíteros e diáconos concelebrantes. Corre-se o risco de abuso transformando-o num momento festivo de amigos, sem a comunhão dos diferentes, sem o significado profundo e sagrado da comunhão de respiração, da convocação para a comunhão de irmãos. O abraço da paz é rito penitencial e de compromisso fraterno. É a condição para fazermos comunhão com o Senhor.

Pe. José Artulino Besen

 

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  1. #1 por Ana Clara em 7 de agosto de 2009 - 16:25

    Eu acho que se as pessoas entendesssem a dimensão do amor de Deus, que é vida, só assim poderia dar ao irmão um beijo que realmente teria significado de vida. Infelizmente hoje, o beijo é mais do que um sinal de morte, pois mata a pureza do amor, a dignidade, e não é sinal de amor verdadeiro, na maioria das vezes.

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