O SENHOR DOS PASSOS – UM ENCONTRO

Com a cruz às costas subindo o Calvário, Jesus viveu diversos encontros: com um grupo de mulheres, com sua Mãe, com Verônica, João. Nesses encontros o Senhor não permitiu que chorassem por ele, mas que o aceitassem derramando lágrimas por todos. Não permitiu que o consolassem, porque a Cruz era a Palavra única naquele caminho de dor e de amor. Nesse caminho redentor os gregos pediam sabedoria, os judeus milagres, mas Jesus tinha a oferecer somente o escândalo e a loucura da Cruz (cf. 1Cor 1, 18-23). Ela seria o trono da dor e glória supremas: manifestou-se «o amor do Pai que crucifica, o amor do Filho que é crucificado, o amor do Espírito que triunfa pelo poder da cruz. Assim Deus amou o mundo! Todo e somente o amor de Deus: este é o princípio, o meio  e o fim da cruz» (Filarete de Moscou). «Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único» (Jo 3,16); «O Filho do Homem será entregue; … eles o condenarão à morte» (cf. Mc 10,33).

Icons by Bulgarian Master Jivko Donkov.

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O caminho da cruz e o desenlace final são prenúncio da liturgia cristã: o Corpo chagado, dilacerado e o sangue derramado serão, por toda a história, o Corpo partido e repartido e o Sangue derramado e bebido pelo Povo que celebra a ação de graças, a eucaristia, na expectativa da ressurreição.

Quem se encontra com o Senhor carregando a cruz tem a experiência da libertação, enquanto que a dor e a paixão de Jesus aumentam, porque escolheu como missão de amor carregar por nós nossa cruz e assumir como seus nossos pecados. O Pai, o Filho e o Espírito unem-se numa única dor, dor amorosa. A palavra não convence, somente a dor tem a força de atrair nosso olhar ao Homem das dores e em sua face contemplar as lágrimas derramadas por nós: «Não chorem por mim! Eu choro por vocês!», é a súplica do Senhor que carrega a cruz. Se algum de nós, como as mulheres que o encontram, chorar, estará tirando do Senhor a escolha de derramar, definitivamente, todas as lágrimas que nos redimem.

As lágrimas lavam os olhos de Jesus e, assim, nos contempla regenerados pelo amor do Pai que o crucifica, e seu, que se deixa crucificar. Nunca alguém conseguirá imaginar a beleza daquele olhar que encerra todo o Amor, e também jamais conseguirá suportar a força redentora do Deus Trindade que desce até as profundezas do homem, da mulher, da criação. Somente quem descer misticamente a esse abismo profundo será capaz de uma oração verdadeira: «Das profundezas, Senhor, a vós eu clamo!» (Sl 129 [130], 1).

Minutos depois, longos minutos, ele está crucificado. Sua Mãe prende a garganta para não soltar nenhum grito; João contempla o infinito buscando a explicação possível para tamanha dor. Mais tarde ele compreenderá e terá a palavra total: o Amor. «Deus é Amor» (1Jo 4,8b). Apenas os que forem capazes de mergulhar na profundidade do Amor contemplarão Aquele que o Pai crucificou, sempre por amor.

Jesus oferece a todo aquele que sofre inocentemente carregar também, na sua inocência, os pecados do mundo. Todo o sofrimento inocente das vítimas do pecado do mundo é também sinal e manifestação da glória de Deus.

Nenhum santo pediu para ser livre do sofrimento, pois sabia que era esse o caminho perfeito de união redentora com Cristo. Muitos santos pediram o dom das lágrimas, não lágrimas de remorso ou de buscar consolação, mas lágrimas que lhes lavassem os olhos e assim fossem capazes de olhar cada pessoa como Jesus a olhou no caminho do Calvário e do alto da cruz: na mediação única do amor.

O encontro com Verônica, a caridosa mulher que a tradição faz enxugar o rosto do Senhor, é transfigurado: «Vede se há dor semelhante à minha dor»! (Cf. Lm 1,12). Como a nós, a ela Jesus diz: «Não chorem. Eu e o Pai choramos por vocês. Deixem-se lavar por nossas lágrimas de amor».

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