O NATAL, OU A HUMILDADE DE DEUS

«O povo que andava na escuridão,
viu uma grande luz;
para os que habitavam nas sombras da morte,
uma luz resplandeceu».

(Isaías 9, 1)

O tema de luz perpassa o tempo de Natal e o da Páscoa e é celebrado a cada Batismo. Também nos é lembrado a cada vez que escutamos o próprio Jesus afirmando: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12). O tema da luz explica a importância das curas de cegos no Evangelho.

Em uma cena do drama «O pai humilhado», de Paul Claudel, uma moça judia, linda, cega, aludindo ao duplo significado da luz, pergunta a seu amigo cristão: «Vós que vedes, que uso fizestes da luz?» É uma pergunta dirigida a todos nós que nos confessamos cristãos. Temos a Luz: o que dela fazemos? O que queremos enxergar com ela?

A nossa dificuldade em dar resposta coerente à judia cega é que usamos mal ou desconhecemos a atitude necessária para fazer bom uso da luz, da Luz. Tentamos o critério do poder, da majestade, do milagre, e a fé se deforma. Optamos pelo critério do julgamento, do medo da justiça divina, e a fé torna-se risível.

O Natal nos aponta uma palavra iluminadora: a HUMILDADE. A humildade de Deus. Nosso Deus é humilde. Se tivermos dificuldade em admitir essa verdade contida em todas as Escrituras, o Cristianismo perde o sentido e até a razão de ser. Os maiores críticos da revelação cristã apontam exatamente a incoerência de um Deus todo-poderoso mas que é frágil, impotente. Nessa fragilidade, porém, é que reside a força e a potência do Deus Trindade. A manjedoura de Belém e a Cruz do Calvário são os sinais mais poderosos da humildade divina.

Deus pede hospedagem a Abraão, suplica a Moisés que liberte seu povo – um povo de escravos no Egito, pede a profetas frágeis que desarmados falem a reis, sofre por ser traído em seu amor esponsal, quer ter uma mãe, escolhida entre jovens da insignificante Nazaré. Os anjos cantam Glórias, mas o Filho tem de fugir para o Egito e, no retorno, a vida silenciosa de 30 anos.

A humildade de nosso Deus se revela na figura do Pai sofrido que espera o filho pródigo, do Filho que aceita ser manifestado como manso Cordeiro, pequeno Pão consagrado, do Espírito Santo simbolizado na carinhosa pombinha.

O Deus humilde chega até nós, mas não nos substitui, pois não quer que nos sintamos incapazes. Refuta o milagre triunfal que nos deixaria amorfos, submetidos ao fatalismo da história.

Deus pede licença para nos perdoar: é o Espírito que geme em nós para que reconheçamos nossa condição e o faz tão delicadamente que na distração da vida não o percebemos.

A humildade de Deus é tão clara que somente podemos vê-lo (sim, ele pode ser contemplado) no faminto, no doente, preso, desabrigado, sedento, doente, nu. O Deus humilde não nos julga pelo que lhe tenhamos feito, mas pelo que fizemos ou não a seus filhos e, dentre esses, os mais insignificantes.

O verdadeiro povo do Deus verdadeiro é o povo humilde, que invoca o Bom Jesus, o Bom Deus. É o povo nunca culpando o pobre Deus por nada. Eles, que são pobres, reconhecem a pobreza de Deus e, por isso, ao pedirem uma graça, até lhe oferecem algum voto ou retribuição. Para eles a Bíblia é Palavra de Deus que lhes é dirigida, não um problema intelectual. Os sábios dizem: isso é fundamentalismo!

Na cena memorável do romance Os Irmãos Karamazov, Dostoievski coloca Jesus sendo julgado e condenado pelo Inquisidor de Sevilha porque rejeitou o poder, a fama, o milagre. Por que rejeitar o milagre tendo poder para fazê-lo?  E o humilde Jesus nada responde, porque Deus Pai não quer ser temido e ter o mundo facilitado pelo poder dos milagres. Ele quer agir e deixar agir pela única força que os humildes possuem e que é a única força divina: o amor. O amor é o ato perfeito dos humildes, que nada pedem em troca, que agem silenciosamente, que não pensam em si.

Nosso Deus é humilde porque é Amor. Sempre será desprezado pelos soberbos e pelos cristãos ciosos de um lugar de prestígio no mundo religioso.

Os pastores acreditaram no anúncio de anjos e adoraram o Menino. Os Reis vieram do Oriente e adoraram o Deus Menino no menino Deus. Aceitemos a fragilidade de Deus para sermos fortes no amor.

Pe. José Artulino Besen

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