As Bem-Aventuranças, Código Do Cristianismo

Fra Angelico - Sermão da Montanha

Fra Angelico – Sermão da Montanha

Assim como o Código da Aliança (Ex 20, 1-17) é o centro da Antiga Aliança, as Bem-aventuranças (Mt 5, 1-12) são o Código da Nova. Na primeira, Moisés subiu ao Monte e do Senhor recebeu o Decálogo. Na segunda, Jesus subiu ao Monte e entregou aos discípulos as oito Bem-aventuranças. No Monte da Transfiguração (Mt 17, 1-9), quando Moisés e Elias conversam com o Senhor glorioso, acontece a transfiguração da Religião: antes, o Decálogo ensinava as obrigações do homem para com Deus;  agora, as Bem-aventuranças trazem o que Deus faz pela humanidade.

Essa mudança é substancial: nas religiões a preocupação é o que fazer para satisfazer a Deus, o homem serve Deus cumprindo a Lei. No Cristianismo, o enfoque é radicalmente oposto: o homem dá-se conta do que Deus faz por ele. É o confronto entre a Lei e a Graça. Jesus nos faz obedecer ao Pai assumindo as atitudes do Filho. Em Jesus não há mérito, mas gratuidade. Não buscamos merecer, pois já recebemos tudo: Jesus está sempre presente em meio à comunidade.

Mas, na catequese, continuamos a decorar os 10 Mandamentos, e as Bem-aventuranças ficam à margem. Os Santos não são os que “se comportaram bem”, o que é normal, mas os que viveram as Bem-aventuranças.

«Bem-aventurados os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus»: é a primeira Bem-aventurança e a raiz das outras (cf. Mt 5, 1-12). Bem-aventurado significa possuir a felicidade plena, qualidade do divino. Jesus, porém, afirma que é possível ser feliz aqui, numa nova relação com Deus e as pessoas. Deus é o autor da felicidade e, no Monte, Jesus convida todos à felicidade. Surge uma pergunta: alguém é feliz sendo pobre? É a pobreza um ideal humano? Se o Cristianismo ensinar assim, a religião será o ópio do povo, o refúgio dos que desistem da vida e esperam a felicidade no céu. Jesus não quer sejamos alienados. A vida eterna não é para se esperar, mas para ter início já, aqui. Ser cristão é decidir por uma vida feliz.

Na Antiga Aliança, a vontade de Deus já se manifesta no sentido de que ninguém seja necessitado. Era o plano de Deus para Israel, renovado no Monte das Bem-aventuranças. Os primeiros cristãos testemunhavam a ressurreição de Jesus pelo fato de que ninguém era necessitado na comunidade, repartiam tudo entre si. Jesus veio para realizar isso, a fraternidade brotada da filiação divina.

Rico é quem tem e guarda só para si. Entra na categoria teológica de pobreza quem confia no Senhor e decide entrar na pobreza para que o pobre possa ser feliz: diante dos que repartem, ele deixa de ser pobre. Os que têm bens sentem-se responsáveis pela situação dos pobres. E são felizes no Reino dos Céus.

A felicidade das Bem-aventuranças é o triunfo da liberdade: tomo a meu cuidado o outro, e Deus toma cuidado de mim. É a condição da felicidade: em tudo se sente a presença plena de um Pai.

A primeira Bem-aventurança condiciona as outras. Os que sofrem serão consolados: Isaías anunciou que o Messias viria consolar (cf. Is 61). Os aflitos de Isaías são o povo que é oprimido pela dominação externa pagã e dominação interna dos chefes religiosos. Os que são atirados para fora serão bem-aventurados porque consolados com a eliminação, pela raiz, da causa do sofrimento, pois a comunidade assume o cuidado desse sofredor.

A felicidade das Bem-aventuranças é o triunfo da fraternidade. Deus não queria a monarquia, um homem com poder sobre outro. Israel teve reis contra a vontade do Senhor. Deus quer que todos sejam senhores, reis. Um povo de reis, não de pessoas submissas ao jugo da opressão.

A Festa de Todos os Santos celebra os homens e mulheres que viveram as Bem-aventuranças: desceram, para que os outros subissem; repartiram, para que todos pudessem ter; serviram para que todos se sentissem irmãos. E nessa vivência à imagem de Deus que tudo dá, são Bem-aventurados. É um sonho para nós, mas, antes de tudo é uma tarefa de quem quer ser feliz como cristão.

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