CRISTIANISMO, GRANDEZA OU PROPAGANDA

De Santo Inácio, bispo de Antioquia, martirizado em Roma no ano 107 e celebrado em 17 de outubro, é a grave advertência: «O Cristianismo é questão de grandeza, não de propaganda». Com outras palavras: o Cristianismo se espalha pela grandeza da vida dos cristãos, e não pelas artes da propaganda.

Certamente Inácio choraria se escutasse as palavras que hoje homens da Igreja dizem como se fossem caminho de evangelização: «temos o melhor produto, mas não sabemos vendê-lo: a salvação. A diocese e a paróquia são empresas que oferecem salvação, precisam saber anunciar seu produto.»  Evidente a blasfêmia: a salvação vem de Deus, é de Deus, conduz a Deus. Jesus nos envia como testemunhas e não como propagandistas.

São tentações brotadas daquilo que o teólogo-mártir D. Bonhoeffer denominava «a graça a baixo preço.» Para Bonhoeffer, o preço da sua fidelidade foi a morte no Campo Concentração de Auschwitz.

Em uma ocasião o apóstolo Paulo caiu na tentação do sucesso das artes de comunicação. Foi ao pregar aos filósofos no Areópago de Atenas (cf. At 17, 22-32): apresentou a doutrina cristã em vestes palatáveis. Fracassou: os ouvintes disseram que gostaram, mas viriam escutá-lo noutro dia, isto é, nunca. Paulo retomou a decisão de anunciar somente Cristo, e Cristo crucificado. Alguns estudiosos até julgam que esse texto seja uma interpolação, pois o Apóstolo das Nações nunca deixaria de falar na Cruz salvadora, loucura e escândalo, mas sabedoria de Deus, sabedoria do amor que salva.

Paulo, o grande missionário, tinha consciência de que fora escolhido para anunciar o evangelho – sem sabedoria de palavras, «para não esvaziar a força da cruz de Cristo» (1Cor 1,17). A cruz esvaziada é a cruz barata, dourada, sucesso garantido, festiva, carregada por pessoas que não buscam salvação, mas libertação de traumas psico-religiosos.

São as tentações da insegurança que quer nos levar a adaptar os tempos de Deus aos nossos tempos, às nossas pressas. O medo da derrota do Cristianismo encontra lugar cativo nos que vendem a graça a baixo preço, pensando que a fé em Cristo é medida pelas estatísticas e que sua vitória será medida pelos estádios e igrejas cheias. Bem diferente a palavra de João Paulo II na entrevista que concedeu ao jornalista V. Messori: «Cristo vence, é sempre vencedor. Cada vez que uma pessoa o recebe como Salvador pessoal e se faz discípulo, Cristo é Rei vencedor.» O Papa que sofrera a perseguição sob o regime comunista polonês, que vira tantos bispos, padres, religiosas e leigos serem presos, deportados, fuzilados, sabia bem o que é a vitória de Cristo: é a perseverança sempre, a fidelidade sem indecisões.

«Deixem-me ser a comida das feras pelas quais me será dado saborear Deus. Eu sou o trigo de Deus. Tenho de ser triturado pelos dentes das feras, para tornar-me um pão puro de Cristo.» (Santo Inácio de Antioquia)

«Deixem-me ser a comida das feras pelas quais me será dado saborear Deus. Eu sou o trigo de Deus. Tenho de ser triturado pelos dentes das feras, para tornar-me um pão puro de Cristo.» (Santo Inácio de Antioquia)

Voltemos a Inácio de Antioquia. Ele percebera que em Roma os cristãos estavam organizando uma iniciativa que o libertasse da boca dos leões. Queriam poupá-lo do sofrimento humilhante. Inácio protesta, afirmando o preço da alegria cristã: «Deixem-me ser a comida das feras pelas quais me será dado saborear Deus. Eu sou o trigo de Deus. Tenho de ser triturado pelos dentes das feras, para tornar-me um pão puro de Cristo.» Desejava o martírio, não queria que intercedessem por ele. O ardente desejo do encontro com Cristo era uma característica das primeiras comunidades cristãs.

Os missionários que atuam na Mongólia, atendendo a meia centena de cristãos, realizam um trabalho evangelizador necessário: testemunhar a vida cristã aos não-cristãos. As centenas de cristão indianos que nesses dias estão sendo mortos, queimados vivos, escalpelados por fanáticos hindus, dão coragem aos outros cristãos e mostram com seu amor a Cristo o preço da Graça: ela não tem preço.

As multidões que cantam o Senhor são motivo de júbilo. As igrejas cheias nos enchem de consolação. Os pregadores-pop das praças, rádios e TVs nos envaidecem. A Igreja sempre valorizou o reavivamento, as missões populares, dirigidas aos já fiéis.

A missão, porém, está em outro nível: o do testemunho, o da alegria da fé sem esmorecimento. O Cristianismo se espalha pela grandeza da vida dos cristãos, e não pela força da propaganda. O missionário não leva nada mais do que sua vida e a Palavra de Deus, sua grandeza e fraqueza, mas sua única força.

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