SANTA MARIA DE NAZARÉ

Detalhe de um ícone russo do século XVI do Nascimento da Virgem

Detalhe de um ícone russo do século XVI do “Nascimento da Virgem”

O Ocidente inicia o Ano cristão com o Advento/Natal e o conclui com a festa de Cristo Rei: seu centro e plenitude é o Senhor. Já o Oriente prefere situá-lo partindo de uma criatura exemplar, a Virgem Maria: inicia o Ano cristão com a Natividade de Maria (8 de setembro) e o conclui com sua Assunção ao Céu (15 de agosto). Um caminho diverso para viver o mesmo mistério da salvação.

Quando afirmamos que «Deus é amor» estamos também afirmando que «Deus é liberdade», pois no amor nada pode ser coação. Só seres livres amam de verdade. Ao criar o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, Deus os criou livres. Esse gesto amoroso levou os primeiros pais a confundirem liberdade com negação do amor: e perderam os dois, mergulhando na experiência do pecado, que é viver amando sem liberdade (egoísmo) e sendo livres sem amor (opressão). Caim mata Abel, inaugurando o fratricídio: o outro é concorrente, não irmão. A Torre de Babel simboliza o orgulho humano de sem Deus construir a civilização, desafiando-o frontalmente: o progresso passa a ser fonte de soberba e a arte deixa de ser cultual para ser apenas cultural.

O amor de Deus não é derrotado frente a uma história de rejeições: sempre sobra um «resto» capaz de amor, capaz de eleição. A linguagem dos Profetas consola a humanidade decaída com os «restos» fiéis que fazem renascê-la. Na Primeira Aliança, esse resto gerou Abraão, o Pai dos Crentes, capaz de ouvir, como discípulo, a voz de Deus. No dia em que Abraão aceitou oferecer em sacrifício de amor seu filho Isaac, Deus viu que o tempo estava maduro para a humanidade aceitar a Salvação: se um homem livremente lhe oferece o filho, o Deus Trindade pode oferecer o Filho aos homens. Na liberdade do amor, o Filho aceita a vontade do Pai e vem habitar entre nós. A encarnação do Filho estava no plano eterno de Deus: unir a natureza divina com a humana, tornando-se Deus-homem.

Era preciso, porém, mais um gesto livre de amor: aceitar ser Mãe do Filho, que dela necessita para assumir a humanidade. É o mistério da humildade divina: pedir a uma criatura sua a doação da natureza humana para sua Palavra eterna.

Deus Amor não provoca com gestos brutais, de força: ele é amor-silêncio, amor-esperança. No «resto» do Povo da eleição, silenciosamente escolheu Maria de Nazaré, a filha de Joaquim e Ana. Somente Maria, sem pecado, seria capaz de uma resposta total e livre. Tudo o que Deus esperava do ser humano – o sim no amor – Maria realizou ao responder «Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra». Ao ouvir esse sim, o Espírito Santo ocupou todos os espaços de Maria e a tornou toda Santa. A Virgem de Nazaré abria sua carne para acolher o Filho divino e oferecer-lhe a natureza humana, tornando-se Mãe de Deus em sentido pleno. Seus antepassados tinham recebido espiritualmente a Palavra de Deus através dos patriarcas e profetas: Maria recebe corporalmente a própria Palavra, o Verbo que se faz Carne.

Naquele dia, em Nazaré da Galiléia, uma Virgem tornou-se habitação de todo o plano divino. Nela encontrou moradia o mistério da salvação. O Deus bíblico encontrou um corpo, o corpo de Jesus de Nazaré. Agora o corpo é patrimônio comum de Deus e do homem e templo vivo do encontro entre os dois. A Igreja afirma, com São João Damasceno, que «o nome de Mãe de Deus – Theotókos – contém toda a história do plano divino no mundo». Ela é filha da santidade gerada na Primeira Aliança, Mãe do Verbo e esposa do novo Israel.

No mesmo tempo, o seio estéril de Isabel gerava João Batista, o eleito para preparar os caminhos do Senhor. Nazaré oferecia a esposa de Israel/Igreja e Ain Karim oferecia o amigo do Esposo. Maria é o silêncio que encarna a Salvação; João Batista é a voz que grita apresentando Aquele que tira o pecado do mundo.

Desde toda a eternidade o Deus Trindade preparou e esperou esse momento misteriosamente guardado em Maria, a Arca da Aliança, a Porta do Céu, a Estrela da Manhã, a Torre de Marfim. Em seu silêncio, Maria guarda todas essas coisas, todas as maravilhas que vão se revelando ao longo da história da Última Aliança. Até a consumação dos tempos, quando seu Filho será tudo em todos.

Pe. José Artulino Besen

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