PAULO, OU A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ

A  comunidade cristã de Roma tinha sido fundada por judeus que aderiram a Cristo, os judeu-cristãos. Era tendência desses cristãos julgar que, para aceitar Cristo, seria necessário vincular-se à Lei da Antiga Aliança com os seus preceitos de circuncisão, guarda do sábado, abluções, alimentos puros e impuros. Isso constrangia os pagãos que queriam aceitar Cristo como seu Senhor, mas não queriam ser judeus.

Surgiu o conflito entre a Lei e a Graça, entre a salvação pela Lei e a salvação pela Fé, tema esse que levou ao primeiro Concílio em Jerusalém.

Apóstolo Paulo

A experiência pessoal de Paulo era muito clara: judeu fervoroso, do grupo dos fariseus, ele perseguia os cristãos e odiava o Cristo. Ora, se bastasse a Lei para a salvação, estaria salvo com toda a tranqüilidade, pois era um judeu correto, zeloso da tradição dos Pais. Mas, o Senhor o buscou e o transformou por Graça, não pela Lei. No caminho de Damasco não lhe foi confirmado continuar a ser fariseu, mas a aceitar a salvação pela invocação do Nome de Jesus. Merecimento de Paulo? Não. Tudo obra da Graça, da gratuidade do amor de Deus revelado em Jesus morto e ressuscitado.

Paulo não abandonou a vivência das tradições da lei mosaica, mas defendeu com todo o vigor que elas não salvavam e que os pagãos que aceitassem Cristo não deveriam ser judaizados, distinguindo entre povo e nação. Sofreu muito por isso: foi chamado de traidor de seu povo num momento difícil da história de Israel, foi apedrejado, difamado, muitas vezes, até pelos cristãos oriundos do judaísmo. Ao chegar a uma cidade, Paulo primeiramente se dirigia à sinagoga, para pregar o Evangelho a seus irmãos judeus. Sempre escorraçado, passou a anunciar Cristo aos pagãos, definitivamente libertando o Cristianismo do nacionalismo judeu.

Escutando que os cristãos de Roma exigiam que os pagãos aceitassem a Lei de Moisés, Paulo escreve-lhes uma Carta pelo ano 57/58, a Carta aos Romanos, um dos textos centrais da fé cristã. A preocupação do Apóstolo é grave: se a Lei mosaica é necessária para a salvação, então o Cristianismo não é necessário. Basta ser bom judeu.

Escreve: “Nele (o Evangelho) se revela a justiça de Deus, que vem pela fé e conduz à fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’” (Rom 1, 17). Comentando as três palavras: Evangelho (o Senhor morto e ressuscitado), Justiça (Deus justo que nos faz justos, mesmo sendo nós merecedores de castigo) e (crer no Senhor Jesus, aceitá-lo com Salvador, receber os frutos nascidos da Cruz/Ressurreição e entregar-lhe nossa existência).

Ser cristão não é ser bem comportado (bastaria a lei humana), não é obedecer a Deus como se obedece a um Rei (bastaria um poder punitivo). Ser cristão é entregar a vida, confiantemente, não a um código de conduta, mas a uma Pessoa, o Filho de Deus. Fruto dessa entrega é o amor do Pai que nos chama também de filhos, filhos-no-Filho. Para os que pregam Jesus como modelo de vida e fonte de leis, reafirmaria: O Justo vive pela fé. Somos justos porque Jesus realiza em nós essa obra, por pura Graça, a Graça da Cruz.

Paulo quis que os judeus retomassem as Escrituras, pois eles têm a Lei, mas o que os salva é a Promessa feita a Abraão. A lei serve para conhecer o pecado, não para salvar. Pagãos e judeus têm dívida universal com Deus e são justificados pela fé.

Então, para que servem as obras? É muito claro: uma boa árvore produz bons frutos. Se pela fé aceitamos Jesus como nosso Senhor, nossas boas obras são conseqüência dela. Quem faz de Jesus seu Senhor, vive em Jesus, vive as Bem-aventuranças.

Paulo nunca cedeu na doutrina da Graça. Alguns historiadores atribuem sua condenação à morte não aos pagãos romanos, mas aos judeus que o viam como traidor ou talvez, pior, denunciado pelos judeu-cristãos. Paulo derramou seu sangue com alegria, pois nenhuma dor ou alegria poderiam ser superiores ao conhecimento do amor pessoal de Cristo por ele. E hoje, por nós.

Anúncios

, ,

%d blogueiros gostam disto: