A pessoa é sempre um mistério

«Sede bendito, Senhor,
por me haverdes feito de modo tão maravilhoso,
conheceis até o fundo a minha alma»
  (Sl 138,14)

Há noivos que após algum tempo de casados se estranham: «Pensei que já conhecia você. Mas, você é tão diferente!». Daí surgem crises que, ou desembocam num amor maior, ou no fim da vida a dois. Há também amigos que de repente se estranham: «Pensei que você fosse diferente!». A amizade poderá crescer, ou levar à indiferença.

Nós temos uma tendência de dominar a pessoa pelo conhecimento dela. Quanto mais a conhecemos, mais teremos condições de dominá-la. Queremos saber tudo a seu respeito: o que pensa, o que faz, o que quer, o que sente. O desconhecido nos amedronta, é misterioso. Ou nos afugenta, ou nos faz cair na admiração, que é a atitude normal diante do mistério.

Existe em cada um de nós um campo que não pode ser dominado: é a nossa interioridade, a nossa intimidade. Constitui o nosso «segredo» pessoal. Se nossa intimidade fosse totalmente conhecida, deixaríamos de ser pessoas, e nos tornaríamos objetos. Poderíamos ser dominados pelos outros. É essa intimidade que caracteriza a nossa diferença, o nosso mistério pessoal. É desse mistério que se nutre o amor.

Nossa época é marcada pela devassa da interioridade das pessoas que, por sua vez, perderam o pudor. Revistas de fofocas comentam aspectos íntimos de pessoas e elas, por sua vez, se expõem na sua intimidade. O preço disso é a banalização da pessoa, tornando-a incapaz de um amor verdadeiro, cultivado.

Quanto mais conhecemos uma pessoa, menos a conhecemos, mais ela se torna misteriosa, desconhecida. O amor nos faz, então, aprofundar o conhecimento pessoal ou, em outras palavras, aprofundar a admiração, o amor. E isso, numa proporção sem limite.

O amor é mais forte do que a morte. Uma vida, por mais longa que seja, é extremamente curta para conhecermos uma pessoa. Uma vida é muito breve para amarmos suficientemente. Nesse ponto muitos se enganam: acham que já se conhecem o suficiente, que já se amam bastante. Acomodam-se um diante do outro, e a vida a dois se torna monótona, solitária, insuportável. Quando o casal acha que já se conhece o suficiente, a vida perde a graça, termina o esforço compensador de aprofundar o relacionamento, acaba a admiração. Isso acontece, sobretudo quando o amor nasceu da beleza física, ou da riqueza, ou do status. Beleza, riqueza, status podem ser ponto de partida para um grande amor, mas não o alimentam por muito tempo.

O amor se nutre do fascínio, da contemplação do mistério pessoal. E, nesse ponto, a decadência física, a pobreza, não colocam obstáculo, pois amamos uma pessoa, e não suas qualidades ou aparências. As qualidades, separadas da pessoa, significam pouco. Mas a pessoa, na sua riqueza pessoal, sempre é um poço de qualidades.

Por mais que os pais conheçam os filhos, eles serão sempre surpreendentes e admiráveis. Por mais que um amigo conheça seu amigo, ele será sempre mais digno de admiração. A pessoa é um mistério, porque participa do mistério de Deus. Podemos dominar uma pedra, torná-la pó, analisar suas moléculas, átomos. Ela deixará de ser pedra: será pó. O ser humano, não: é semelhante a Deus que, quanto mais se revela, mais se torna mistério. O mistério de Deus nos leva à adoração; e o mistério da pessoa humana nos leva à admiração, alimento do amor pessoal.

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