Perdoar, para ser perdoado

«Eis como meu Pai celeste agirá convosco,
se cada um de vós não perdoar,
de coração, ao seu irmão». 
(Mt 18,35)

Existe unia situação em que Deus não perdoa, em que sua justiça se manifesta: quando aquele que é perdoado não sabe perdoar. É atitude de tanta importância e exigência que se encontra na Oração que Jesus ensinou, o Pai-nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,12). A justiça de Deus se manifesta a nosso pedido: que ele nos perdoe, mas somente se nós perdoarmos! Nem sempre nos damos conta da seriedade e severidade deste pedido.

Jesus exemplifica a atitude de Deus e do homem com uma história. Um servo devia unia fortuna a seu rei. Como não podia pagá-la, foi perdoado. Apenas saiu, no caminho encontrou um amigo que lhe devia uma ninharia. Foi intransigente: ou lhe pagasse, ou iria preso. E mandou prendê-lo, sem compaixão. Pouco depois, o rei ficou sabendo da dureza de seu servo. Indignado, mandou prendê-lo e confiscar-lhe os bens, até que pagasse tudo. O rei foi justíssimo: como alguém que foi perdoado em muito, não foi capaz de perdoar em pouco?

A situação se repete em nossa vida, infelizmente com muita freqüência. Tanto em relação a Deus, como ao próximo. Somos perdoados com imensa misericórdia, e depois usamos medidas rigorosas e mesquinhas para perdoarmos o semelhante. Normalmente, os que menos perdoam ofensas, são os que mais ofendem. O marido infiel exige fidelidade absoluta de sua esposa, sendo capaz de matá-la num lance de ciúme. O atleta mais bruto do estádio, geralmente é o que mais se indigna com a menor brutalidade. Quem muito exige para si acha sempre exagerado o que o outro pede.

O perdão é irmão gêmeo do amor: quem ama, perdoa, quem perdoa, ama. Quem ama, tem a bondade de admitir que o outro erra, e que somente poderá não mais errar se for perdoado. Perdoar e amar, dois pilares sobre os quais se edifica a vida cristã. Deus nos ama, e por isso nos perdoa. O agradecimento menor que lhe podemos oferecer é tomar a mesma atitude diante de quem nos ofendeu.

A intransigência no perdoar, destruiu muitas pessoas. Quiseram se reerguer, mas não encontraram uma família, grupo ou comunidade que as perdoasse. O não-perdão condenou-as à morte afetiva, espiritual, arruinou sua vida. Se os pais não perdoarem os deslizes de seus filhos, como poderão eles tentar uma nova vida? Se não perdoarmos as fraquezas de nossos amigos, que amizade é essa que não admite erros? Perdoar é sinal de inteligência e humanidade: hoje sou eu que devo perdoar; sem dúvida alguma, amanhã eu estarei precisando de perdão. Para poder me reerguer, poder crescer.

Mas, além de todas as considerações, basta essa: Deus me perdoa a cada vez que peço perdão. Ele não faz estatísticas de meus erros. Não vale a pena ter a mesma compreensão com os que me rodeiam?

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