«O Espírito Santo, Fogo que purifica e aquece»

pentecostes3O evangelista João testemunha a autoridade de Jesus em seu momento na cruz: «e inclinando a cabeça entregou o espírito» (Jo 19,30b). Os Santos Pais da Igreja viram nessa palavra inspirada dois gestos de salvação: Jesus inclina a cabeça e contempla a humanidade que não poderia ficar órfã e sem vida; em seguida, entrega-lhe o Espírito Santo, que é dele. “o meu Espírito”. O pentecostes da cruz acontece na hora extrema do amor de Cristo: é de seus lábios sofridos, machucados, que o mundo recebe o Advogado, o Consolador, o Santificador, o Paráclito.

Naquele momento central da história da salvação, o Amor se revela em estado puro: o Pai entrega-nos o Filho crucificado, o Filho entrega-nos o Espírito Consolador, o Espírito mergulha no mundo e em cada um de nós como princípio de uma nova vida, agora pascal.

Fragilizado como é próprio do amor, o Deus Trindade é paixão total pelo mundo. São João Clímaco (+650) exulta: «Bem-aventurado aquele que tem por Deus uma paixão tão forte como a do amante pela amada», pois esse é o amor divino, um amor esponsal. Feliz quem sabe corresponder a esse amor.

No início da história, Deus soprou o espírito de vida e do barro fez homem e mulher. Na nova criação, Cristo sopra o Espírito e o fogo do amor enche e incendeia o universo. «Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!» (Lc 12,49). Esse fogo é o Espírito Santo, que queima os espinhos dos pecados e dá resplendor à alma, ensina São Cirilo de Jerusalém.

O Espírito Santo é fogo que aquece nosso coração frio pelo egoísmo, gelado pelos relacionamentos possessivos, enrijecido de tanto palpitar para si e esquecer de sentir quem lhe está à frente como irmão, amigo, projeto. Purificados, descobrimos que dentro de cada um de nós existe um país espiritual onde tudo e todos resplandecem de beleza e alegria por terem sido escolhidos e acolhidos. Extasia-nos uma nova beleza, não distante, mas interior, cem vezes mais luminosa que o resplendor do sol (cf. Isaac o Sírio, Hom. Spirit. 43). Esse pai espiritual, nação nova, paraíso recriado, é o Espírito Santo em nós.

O Espírito nos recorda que somos filhos e irmãos

A partir do Pentecostes, que é contínuo se sempre invocado, deixamos de ser escravos e nos tornamos filhos e herdeiros, pois o Espírito Santo o atesta: recebemos um espírito de filhos por meio do qual ele grita conosco: «Abba, Pai!» (Rom 8, 15-16). Com esse grito constantemente aprofunda em nós a verdade de filhos, reavivando nossa identidade de filiação divina. O Espírito não cessa de gemer dentro de nós para recordar-nos a filiação divina, pois, diz o Apóstolo, «a prova de que somos filhos é que Deus mandou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que grita: Abba, Pai!» (cf Gal 4, 4-7).

Filhos no Filho, por ele somos libertados do individualismo, fazendo-nos responsáveis uns pelos outros no Cristo (cf 1Cor 12,26), libertados dos preconceitos raciais, religiosos, sociais e sexistas: somos um só corpo (cf 1Cor 12,13). Ele faz-nos tomar consciência de que existimos na medida em que somos responsáveis pelo outro. Viver para si não é existir na verdade.

O Fogo que recria a história não queima, mas ilumina, não consome, mas brilha, encontrou os corações dos discípulos como receptáculos puros e distribuiu entre eles os seus dons e carismas (cf. Ofício de Pentecostes).

Queimando a monotonia da uniformidade, o Espírito Santo nos mostra a beleza do jardim florido da diversidade: um só corpo em muitos membros. Deixamos de ser um ramo ressequido no deserto e nos extasiamos em ser uma flor no jardim do Espírito. O país espiritual que jorra de nossa interioridade é a casa do Pai.

E recordamos: «Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!» (Lc 12,49). O Espírito Santo é fogo que purifica cada um de nós, mas também é fogo que aquece a Igreja, o jardim de Deus.

A Igreja necessita de estruturas, mas tão leves que não firam a delicadeza do Espírito Santo. E proclama uma palavra tão sólida que não se abala com o desmonte de estruturas inutilizadas pela irrupção incontrolável do Espírito que renova a face da terra: “enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra”.

Pe. José Artlino Besen

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  1. #1 por mariabesen em 5 de fevereiro de 2011 - 12:41

    Muito bem, teus artigos são muito bonitos, com um conteúdo muito profundo.
    Parabéns

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