«Não há liberdade sem sacrifício e renúncia»

“Quem nos dará carne para comer?  Agora estamos definhando.
E comíamos de graça no Egito!” 
(Nm 11,4-6)

Uma gaiola, mesmo de ouro, é uma gaiola. Uma prisão, por mais confortável que seja, não passa de urna prisão. Ambas tiram a liberdade de quem nelas está confinado. Não há valor humano comparável à liberdade. Dinheiro sem liberdade, para nada serve. Grandes ideais pouco significam, se não existe liberdade para atingi-los. Sem a liberdade, não existe uso da vontade. Vontade e liberdade nos fazem pessoas.

A história mostra que, em momentos de dificuldade, os povos sonham com um regime de força, que lhes tira a liberdade, mas, em troca, lhes oferece pão e conforto. Aceita-se o ditador, desde que seja um pai para todos. Para quem tem fome, a liberdade parece inútil, pois a fome mata, e a liberdade não garante a sobrevivência.

Os imperadores romanos acalmavam o povo com pão e circo. Entre nós, se engana com carnaval e futebol. Chega uma hora, porém, em que o próprio pão perde o sabor, se não vier acompanhado da liberdade. Só estômago cheio não satisfaz a pessoa humana. Sem podermos exercitar nossos direitos, não somos mais plenamente humanos. Deus nos criou livres, fez-nos senhores do mundo, e não escravos de pessoas ou estruturas.

A liberdade é uma conquista obtida na luta. Não se pode medir sacrifício para atingi-la. E menos ainda, medir sacrifícios para conservá-la. O mesmo se diga com respeito à liberdade frente aos vícios e dependências. Necessita de heroísmo o alcoólatra que quiser ser livre do álcool, ou o dependente químico que planeja curar-se. Alguns desanimam «porque é difícil». Ora, é exatamente esse «difícil» que dá o sabor à conquista da liberdade.

A liberdade perante nossas más inclinações, igualmente: o esposo que decide ser fiel à esposa e, portanto, livre da infidelidade, tem que estar sempre alerta. O jovem que não se exercita na heróica escola do amor viverá aproveitando-se dos outros, mas achando que está amando. Ceder à tentação é escravidão. Vencê-la, é conquistar a liberdade interior, condição para a liberdade exterior.

Em nossos dias, assiste-se a uma inversão de valores, de conseqüências funestas para a convivência humana: confunde-se liberdade com o se fazer o que vem à cabeça. Muitas pessoas pensam que são livres, porque não se sujeitam a imposição alguma. Há um desprezo pelas leis e princípios morais. Com isso, minha liberdade acaba tirando a liberdade de meu semelhante. Minha liberdade só é verdadeira se respeita a liberdade do outro. Então, a garantia da verdadeira liberdade é a disposição interior de sujeitar-se a determinados limites no pensar e agir. Somente assim a liberdade será um patrimônio de todos.

Os judeus, enquanto escravos no Egito, ansiavam pela libertação. Mas, não queriam arcar com os custos dela: a viagem pelo deserto os tornaria livres, mas a privação, a insegurança, eram o preço a pagar. Tiveram saudades das cebolas e do feijão do Egito quando eram escravos, mas de barriga cheia! Podemos cair na mesma tentação: querer atingir a verdadeira liberdade, sem pagar o preço da sua conquista. Mas isso significa continuar escravo: é renunciar a sermos verdadeiramente humanos.

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