«Deus Pai e seus filhos especiais»

O Pai Misericordioso

O Pai Misericordioso

Os pagãos glorificam a Deus, em razão da sua misericórdia», escreve Paulo aos romanos (15,8.9). Eles podiam até não aceitar a mensagem cristã, mas ficavam impressionados com a pregação de um Deus bom, compassivo, meigo, em contraste com seus deuses fortes e ameaçadores. Paulo anuncia o Deus Pai de Jesus Cristo, tão cheio de ternura que tem ouvidos abertos às súplicas de seus filhos elevados à condição de intercessores.

O mundo se sustenta graças à multidão que, dia e noite, implora por misericórdia. Enquanto uma multidão se diverte em aumentar o reino da Morte, outra multidão se dedica a suplicar pelo reino da Vida. Deus Pai vê e sabe tudo, mas se enternece com seus filhos que pedem por outros filhos. Acaso permaneceria insensível a crianças pobres, desdentadas, doentes, que rezam “Senhor, tende piedade de nós”? Elas, pobrezinhas, que tudo precisam, pedem pelos outros! É o mundo maravilhoso dos intercessores.

Há milhares de anos Abraão foi modesto para salvar Sodoma e Gomorra: “Que o Senhor não se irrite, se falar só mais uma vez: e se houver apenas dez justos?” E Deus respondeu:”Por causa dos dez, não a destruirei”(Gn 18,33). Se Abraão insistisse, mesmo sem nenhum justo, as cidades seriam poupadas.

Moisés, diante da ira de Deus, desafia-o exatamente num ponto sensível: “Ah! Esse povo cometeu um grandíssimo pecado. Fizeram para si deuses de ouro. Mas agora perdoa-lhes o pecado, senão risca-me do livro que escreveste” (Ex 32,31b-32). O Senhor respondeu a Moisés: “Riscarei do meu livro quem pecou contra mim. … mas, quando chegar o dia do castigo, eu os castigarei por este seu pecado” (cf. Ex 32, 34). Esse dia não chega enquanto houver intercessores.

Na cruz, o Filho, maltratado e ridicularizado, pede misericórdia ao Pai ferido: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23, 34). Tal Pai, tal Filho.

O amor de Deus realiza o milagre da expiação daqueles que aceitam ser castigados em lugar dos pecadores.

Paulo, amando o povo judeu que o odeia por traição, é explícito: “… tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua, a tal ponto que desejaria ser, eu mesmo, excluído de Cristo em favor de meus irmãos, meus parentes segundo a carne” (Rom 9, 1-3). São Paulo assinou sua sentença de salvação aceitando ir ao inferno para que os demais fossem salvos.

Quando Geert Groote (+ 1384), fundador da Devotio Moderna se encontrou com o místico flamengo Jan Ruysbroeck (+1293), achou-o pouco animado pelo temor de Deus, pois não tinha preferência nem pelas alegrias celestes nem pelas penas do inferno. Bastava-lhe a vontade de Deus. Ruysbroeck falou-lhe: “Nada temo. Estou pronto a aceitar tudo das mãos de Deus, tudo o que ele dispôs para mim quer nesta vida quer após a morte. Para mim, nada pode ser melhor, mais salutar, mais feliz para me acontecer. Nada mais desejo do que estar sempre pronto a aceitar sua vontade”.

Em sua autobiografia, Santa Teresinha de Lisieux (+ 1897) escreveu que aceitaria ir para o inferno se, com isso, uma pessoa se salvasse. Ela fizera seu o “Tenho sede” de almas de Jesus.

São Luís Orioni (+1940 – canonizado em 2004) era de coração semelhante ao Pai: “Almas, almas… Se o Senhor me permitisse ir até o inferno, num sopro de amor, eu gostaria de tirá-las de lá também”. “Almas, almas”, é o anseio que o levava a suplicar: “Põe-me, Senhor, põe-me na boca do inferno para que eu, por Tua misericórdia, a feche”. No fundo, ele havia pedido isso como graça, no dia de sua ordenação: “Pedi a Nossa Senhora uma graça particular: que todos aqueles que de algum modo tivessem algo a tratar comigo se salvassem…”. Suas últimas palavras ecoam uma fé/amor sem sombras, singela: “Jesus, estou indo!”

Madre Teresa de Calcutá (+1997), por 40 anos viveu a solidão gélida da noite escura: Jesus, seu grande amor, não mais se manifestava. Isso não a leva à incredulidade, mas à doação pelos pobres. Em suas cartas, mostra a luz na escuridão: se o Cristo sem pecado, na Cruz, grita “Meu Deus, por que me abandonaste?”, também ela pode e deve compartilhar o mesmo sofrimento, ela que escreve “Quero amar Jesus como nunca foi amado por ninguém até agora”, ou “se me tornar uma santa, seguramente serei a santa da escuridão. Continuarei a estar ausente do Paraíso, para iluminar àqueles que estão na escuridão na terra. Quero sofrer por toda a eternidade, se for possível”.

Dia e noite, sem interrupção, a Eucaristia é celebrada nos quatro cantos do mundo e se associa ao culto celeste em súplica cercando o Trono do Pai. Por todos os espaços do universo se ouve o grito do Kyrie eleison, Senhor, tende piedade de nós. O clamor dirigido ao Filho eterno opera a graça da ternura eterna do Pai.

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