«Jesus, uma chaga que não cicatriza»

Jesus é uma chaga gravada em nós e da qual não nos curamos. Seu amor feriu-nos de tal modo que nenhuma medicina pode nos libertar dessa chaga remanescente. São dois mil anos de tentativas, medicamentos de todas as áreas da ciência, e nada: a chaga-Jesus continua presente, chaga produzida pelo amor.

É uma ferida que retrata o amor, a misericórdia, ferida que não conhece cura. Sem o amor gerado por essa ferida, nós nos desintegraríamos, pois Jesus é o “outro” que nos permite ser “eu”: sem ele não temos o dom da existência pessoal.

Santa Teresa de Ávila teve a experiência física desse amor que fere. Quando morta, foram estudar seu coração e nele viram os sinais de uma ferida. E recordaram que o Senhor a fizera desfalecer quando transverberou seu coração com a lança do amor.

O mundo quer esquecer Jesus, transformá-lo em mito, fábula de homens fracassados diante de um Messias que morreu. Em vão: quanto mais o tenta destruir mais comprova que dele precisa se lembrar. É possível odiá-lo: esquecê-lo é impossível. A história sonha com um horizonte sem enigmas, sem mistérios, porém, quanto mais longe alcança a visão, mais nítida é a visão Senhor glorioso, humilde chaga iluminando o horizonte e ferindo o orgulho humano.

A chaga que Jesus produziu em nós é conseqüência do amor de Deus Pai, que o fez chaga para nos marcar de amor. Deus criou o homem olhando para seu Filho: conhecendo-se, o homem conhece o Cristo. Conhecendo o Cristo, o homem se conhece. Assim como a obra de arte revela o artista, cada pessoa revela o Cristo. E isso leva ao amor. Nem percebemos que a necessidade de negar Jesus é fruto de nosso impulso auto-destrutivo, de querermos negar nossa natureza, fazer-nos “coisa”, objeto: mas, vendo Jesus estampado em nossa face, e nossa face estampada em Jesus, não resistimos à força do amor que nos dá existência. Pobres de nós: queremos ser livres, mas abdicando do existir, possível somente em Cristo.

Na cruz, ferido pelas chagas, cusparadas, açoites, cravos, ele é o retrato de todo o mal infligido no ser humano, e do mal que o ser humano se auto-inflige. Se, à primeira vista, dá náusea olhar um corpo tão desfigurado, logo nos fere uma atração irresistível por esse homem crucificado por Amor, e nele contemplamos alguém que sofre nossas dores. Como é belo esse amor chagado!

Tudo de Jesus é nosso; tudo o que é nosso é de Jesus. Ele quer nossos pecados como se fossem dele: continuam a avivar suas chagas para transfigurá-los.

O Senhor ressuscitado quis conservar as marcas dos pregos, da chaga do lado direito: são seu título de glória no Trono trinitário. Em sua gloriosa Ascensão ele atravessou todo o universo e mostrou aos anjos, aos santos, a toda a criação as marcas de seu triunfo redentor: cinco chagas santas e gloriosas. Delas brotam raios de luz que transformam toda deformidade produzida pelo pecado em pura beleza. O que é humano torna-se divino, o que foge de Deus é atraído por sua força irresistível e é redimido.

Cada pessoa que se apresenta para o julgamento contempla essas chagas gloriosas e o Pai, vendo-as, transfigura todo pecado humano. Comove-se com cada filho que se apresenta, coberto de pecados, é verdade, mas reproduzindo a imagem e semelhança de seu Filho amado. O Pai contempla as chagas do Filho a seu lado e apenas consegue dizer: “Vem, bendito! Toma posse de teu lugar”.

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