Deus: Ópio, Dinamite ou Vida dos Povos?

Os fundamentalismos atuais fazem da religião um veículo de intransigência e violência. Diante da história de povos, onde a conquista da terra e da nacionalidade dá-se em nome de Deus, surge a pergunta: religião e Deus são veículos da violência? Qual a diferença entre um crente e um ateu ao atirarem uma granada ou explodirem uma bomba?

O mercado editorial oferece forte literatura onde Deus aparece como delírio, fraqueza, inutilidade, onde a religião é acusada de sempre ser veículo de sofrimento e jamais ter feito algo de bom na história dos povos. De modo particular são atacadas as religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) por seu presumido fanatismo em torno de um único Deus verdadeiro e ataque sistemático aos que crêem de outra forma, ou não crêem.

Quando se fala em monoteísmo (fé num único Deus) deve-se estar atento às generalizações: é um único Deus, mas sua narração e vivência são substancialmente diferentes. Não nos compete analisar o conteúdo da fé de um judeu ou de um muçulmano, mas, temos a obrigação, sim, de dizer que nosso Deus é o Deus narrado por Jesus Cristo, é o Deus que se faz fraco para que sejamos fortes, é o Deus retratado por Jesus na parábola do filho pródigo. E, para escândalo de judeus, muçulmanos e doutores, é o Deus Pai que entrega seu Filho por nós numa cruz.

Em Jesus encarnado, rompeu-se o muro de separação entre o mundo divino e o humano, entre o ser humano e o ser divino: o homem é semelhante a Deus porque Deus é semelhante ao homem (Clemente de Alexandria). Gregório de Nissa escreveu, depois: o Homem é a face humana de Deus.

O fundamentalista lê os textos sagrados em seu significado literal. Devemos saber analisar os fatos e os textos bíblicos. A Igreja afirma que a Bíblia é a Palavra de Deus, narra a intervenção amorosa de Deus na história. Nela, porém, se encontra igualmente a palavra humana, com a intervenção da ação humana atiçada pelo pecado. O cristão, lendo a Bíblia, é capaz de nela distinguir entre a palavra humana (condição de comunicação) e a Palavra divina (denúncia do pecado).

O princípio fundamental da Escritura: Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, já na história bíblica é adulterado para “e o homem fez Deus à sua imagem e semelhança”. O homem violento cria um Deus violento, mas não é o Deus da Revelação, que ama seu povo e se abre em seu amor a todos os povos, o Deus materno cujas vísceras fremem de emoção por nós.

No momento em que judeus ocupam a terra de Israel em nome de Deus dela expulsando palestinos, no momento em que muçulmanos se explodem em nome de Alá, quando os cristãos participam de expedições conquistadoras como se fossem missionárias, estão agindo em nome de um deus que fabricaram à sua imagem e semelhança. Aqui não entra Deus, mas o homem que se declara deus.

O Primeiro Testamento se completa com o Segundo, com Jesus, Luz que ilumina todas as Escrituras. Jesus, palavra definitiva e rosto do Deus vivo, operou quatro rupturas na religião do AT, abrindo a religião para uma dimensão tão oposta que os primeiros cristãos foram acusados de “ateus” : a passagem dos laços de sangue para a universalidade de fazer-se próximo; o deslocamento da presença de Deus num templo de pedra para o corpo do irmão; a dilatação do horizonte espiritual da terra de Israel ao mundo inteiro; a transformação do poder em serviço através da distinção entre o que é de César e o que é de Deus.

Tudo isso recebe uma chave de compreensão: o amor. E Cristo oferece uma arma fatal para acabar com a violência e para discernir de que lado está Deus: o amor ao inimigo.

E, como cristãos, temos a fórmula que sintetiza o Amor trinitário: «O Pai é o Amor que crucifica, o Filho é o Amor crucificado e o Espírito Santo é a força invencível da Cruz» (Filarete de Moscou – 1783-1867).

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