«O hoje cristão transcende o tempo»

21Na vida compassada entre o relógio e o calendário damos muito valor ao significado dos dias e tempos, o que não aconteceu na virada do primeiro para o segundo milênio, quando a noção de divisão de tempo era desconhecida da grande maioria. E assim, para nossa emoção, estamos no oitavo ano do terceiro milênio! A Nova Era o anunciou como a era de Aquário, era de paz e fraternidade, e a cada dia machucamos a história com guerras, terror, mortes.

Nós, cristãos, continuaremos a viver o anúncio dos anjos: «Hoje nasceu um Salvador, o Cristo Senhor». Um hoje que transcende o tempo e participa da eternidade de Deus. Não somos movidos pelas previsões, mas conduzidos pela esperança.

Na vida da Igreja, o segundo milênio teve início com a ruptura entre a Igreja Latina e a Ortodoxa, uma ferida dolorosa, pois privou estas duas pujantes formas de catolicismo da mútua fecundação das suas riquezas espirituais e teológicas. A metade do segundo milênio viu nascer mais uma ferida no corpo eclesial, a reforma protestante, que dividiu o Ocidente católico.

A cada ano permanecem palpitantes duas agendas religiosas: o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Recuperar a túnica inconsútil da Igreja e saber dialogar proveitosamente com as grandes religiões. Nas pegadas de seu Senhor, a Igreja sempre mais renunciará a se apresentar como potência religiosa, para ser humilde e dedicada servidora do mundo.

Além do desafio da salvação humana, intrínseco à fé cristã, a Igreja é chamada a um outro compromisso: o da salvação da Criação, conseqüência de sua fé no Deus Criador. Após séculos de devastações, agressões ao meio-ambiente, de consumismo e desperdício acelerados nas últimas décadas, o mundo já era. É preciso correr atrás do prejuízo para que o ser humano salvo tenha onde morar e viver. Por um engano, com raízes filosóficas e religiosas, por ter hiperbolizado a compreensão de sua natureza, o ser humano confundiu seu serviço à Criação com o domínio da Criação. Deu no que deu, pois os recursos naturais não são inesgotáveis. É impressionante como agora estamos vendo os frutos de nossa blasfêmia contra o Criador: rios e lagos poluídos, matas devastadas, buraco na camada de ozônio, espécies em extinção e os lixões – essas cloacas do desperdício humano – desafiando a administração pública. A natureza é generosa e oferece uma oportunidade a cada um de nós, e para os cristãos isso é compromisso. A teologia não pode estar separada da ecologia. A natureza é a primeira tenda de Deus entre nós.

Uma nova ciência desafia a compreensão cristã da vida humana: a biotecnologia, a manipulação genética de embriões com fins terapêuticos. A ciência não pode manipular a vida humana, sagrada: «Sobre a terra, o homem é a única criatura que Deus quis para si mesmo», ensinou a o Concílio do Vaticano II. Afirmou João Paulo II: «A gênese do homem não corresponde apenas à lei da biologia, mas diretamente ao querer criador de Deus, Deus o ‘quer’ em cada concepção.». É o bom combate necessário defender a dignidade humana do embrião a partir da concepção.

Uma grande agenda para nós, cristãos, que não faltaremos em generosidade com o Deus da vida, mais uma vez, como a cada ano enquanto durar a História.

, ,

%d blogueiros gostam disto: