Nem Deus sem o homem, nem o homem sem Deus

“Senhor, que é o homem para dele assim vos lembrardes
e o tratardes com tanto carinho?
Pouco menor do que um deus o fizeste,
de glória e de esplendor o coroaste!”
(Sl 8, 5-6).

O romancista russo Dostoievski faz um de seus personagens afirmar que “o mundo arrisca perecer não pelas guerras, mas de tédio, e de um bocejo tão grande quanto o mundo sairá o diabo…”. Esse tédio que nos priva do sentido da existência é o campo adubado de Satanás, onde tudo planta e tudo colhe. Mas, será essa a única palavra possível? Uma história movida pelo tédio?

O final do Ano cristão nos coloca diante de duas Liturgias que nos desafiam para o alto: Todos os Santos e Finados. Uma inseparável da outra, ambas nos despertando para a realização de nossa vocação no plano divino. O homem é o ápice da criação, pouco menor do que um deus (do que os anjos, na versão siríaca). Como projeto, o homem é mais do que os anjos, pois é convidado a ser semelhante ao Filho de Deus, ensina Irineu de Lião. Os anjos já estão num estágio pronto, não podendo mais subir. Não podem progredir, pois o Criador os fez perfeitos cada um em seu grau. Já o homem e a mulher, cada um de nós, não têm limites: nossa vocação é a semelhança divina, é a perfeição.

A dupla estrutura do homem, corpo-espírito, o coloca no ponto mais alto entre todas as criaturas. São Gregório Pálamas, monge, teólogo, bispo e santo (1296-1359), vai além, partindo do mistério de encarnação: os anjos foram criados pela sabedoria divina, mas o ser humano foi criado à imagem do Verbo encarnado, presente no plano eterno de Deus. O anjo é reflexo puro da luz divina, mensageiro e servidor, nada pode criar. Já o homem, imagem divina, recebeu a propriedade de fazer brotar valores imperecíveis da matéria deste mundo e de manifestar a santidade: “Vós sois a luz do mundo”, não reflexo. Essa posição régia do ser humano condiciona o ministério dos anjos ao serviço do homem, nunca o homem ao serviço dos anjos.

Nossa experiência vital, contudo, é outra: vivemos oprimidos pelo peso dos erros, das limitações, ambições e competições. Cristo veio para nos libertar dessa sensação de inferioridade e, para que possamos atingir a liberdade cristã, nos dá o Espírito Santo que torna possível a vida espiritual. Ela, a vida espiritual, tem origem quando o Espírito Santo grita dentro de nós, no mais profundo de nosso ser: “Abbá”, “Paizinho”. Se aceitarmos participar desse grito, dessa chamada à realidade, iniciaremos o caminho do retorno, o caminho do filho pródigo (cf. Lc 15). Tomaremos consciência de onde nos extraviamos e conheceremos o caminho do retorno ao Pai: e no retorno arrastaremos também a terra que, sob nossos passos, tornar-se-á paraíso. Tudo e todos que conosco tiverem contato serão santificados, pois nossas mãos e pés são santos. Não nos pensemos vítimas de poesia espiritualizante: os santos, concretamente, pelo amor não realizam essa restauração do paraíso?

Seguindo o Espírito que grita “Abbá”, nossa peregrinação será contínua, pois Deus é terra tão plena de amor que no trilhá-la nunca alcançamos o fim. A não ser, é claro, que o Pai nos chame e diga: “Você já retornou! Troque suas vestes!”

Esse caminho nos afasta do orgulho, pois, conhecendo quem somos, sabemos o que ainda não somos por obra da humildade que nos é ensinada pelo Espírito. Sentimos o quanto somos terra desolada, carroções de pecado, mas tudo assumido por Cristo que nos põe em comunhão com ele. E, desse modo, em Cristo vemos nossa verdadeira face, em sua humildade aprendemos a grandeza dos filhos de Deus.

Com ele seremos tomados de ânsia de redenção universal: não nos contentaremos com nosso retorno, mas, a exemplo de Cristo, desceremos até os infernos para levar todos a ouvirem o mesmo grito do Espírito: Abbá! Paizinho!

E saberemos repetir como nossas as derradeiras palavras de Santa Clara de Assis: “Obrigado, Senhor, porque me criastes”.

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