Uma palavra a Lindalva e Albertina

Albertina Berkenbrock

Albertina Berkenbrock

Albertina Berkenbrock, tinha você apenas 12 anos quando, naquele 15 de junho de 1931, um pai de família cujos filhos você socorria na fome quase a degolou com uma lâmina cortante. Foi o preço que você, criança catarinense de Imaruí, aceitou pagar para não ser profanada, dando a vida e o sangue para conservar intacto e belo o templo do Espírito Santo diante da lascívia de um homem que buscava o prazer, mesmo ao custo do horror que você, criança ainda, sentia em desobedecer a Deus.

Irmã Lindalva Justo de Oliveira, você vestiu o hábito das Irmãs Vicentinas para trabalhar com e pelos pobres. Sua decisão levou-a a Salvador para junto dos idosos no Abrigo Dom Pedro II. Seu coração misericordioso fê-la quebrar as regras da casa, aceitando um homem de 46 anos entre os albergados. A caridade de você inaugurou seu calvário. Você era bela, generosa, feliz e aquele homem não suportou sua beleza. Não quis contemplá-la, mas possuí-la. Seu “não” foi claro e definitivo diante do assédio contínuo que a fazia sofrer. Você começou a ter medo, e procurou afastar-se o mais que pôde. Seu amor aos velhinhos a manteve no Abrigo, e chegou a dizer a uma irmã: “prefiro que meu sangue seja derramado a afastar-me daqui”. Irmã Lindalva, em 9 de abril, na manhã da Sexta-feira santa de 1993, você retornava da Via-sacra e passou a servir o café aos anciãos. Aquele homem agarrou você, golpeou-a, atirou-a ao chão e, após 44 facadas, descansou. Horas depois, como Jesus na cruz, você também entregava o espírito, na plenitude de seus 39 anos.

Irmã Lindalva Justo de Oliveira

Irmã Lindalva Justo de Oliveira

Albertina, neste 20 de outubro a Igreja a declarará Bem-aventuradas e a você, Irmã Lindalva, em 25 de novembro. O coro celeste celebrará seu heroísmo, glória dos que alvejam as vestes no sangue do Cordeiro.

O heroísmo de vocês nos envergonha. Pior ainda: constrange. Nós, cristãos, padres e leigos enrubesceremos ao contar a história de vocês. Há muito tempo aceitamos nos sentar sobre a cruz, para que ela sossegue e nos deixe livres para os sucessos do prazer que também nos fascinam. Inventamos até uma teologia para torná-la inexpressiva, invisível, fabricamos um “deus” a que se achega refletindo, discutindo, não criando conflitos.

Lindalva e Albertina bem-aventuradas, somos externamente cristãos, mas, dentro de nós, somos ateus: Deus não conta, vivemos por nossa conta. Por isso, o gesto de vocês nos irrita. Nos acostumamos a ignorar a presença do Espírito Santo em nós e nos outros, e cometemos o pecado de coisificar as pessoas, violentando até crianças.

Homens, mulheres, jovens e crianças, com riso debochado, dirão: “Como foram tolas! Afinal, mais vale viver do que esse sacrifício, e todo mundo faz. Por que vocês não?”.

Até alguns de nós religiosos, hoje expostos nos noticiários de alguns países por violência contra menores, pagando a defesa de nossa desonra com o pão dos pobres, como falaremos de vocês?

Nossos jovens e crianças, freqüentadores de nossos catecismos, estão saturados com a justificação social geral: “Façam, mas não se esqueçam da camisinha! Não carreguem a cruz da fidelidade ao Senhor, mas sejam fiéis ao mundo do prazer, cada vez melhor e variado”. Nosso santuário interior hospeda um cipoal de egoísmos que torna difícil descobrir onde está a vida e onde mora o amor, apesar de tudo ser tão luminoso!

Albertina e Lindalva, vocês serão honradas a contento, e a vida seguirá. Mas, o pessimismo e a auto-flagelação também não levam a nada. Por isso mesmo, a Igreja faz-lhes um pedido: libertem-na de oferecer aos que têm fome as pedras teológicas dos catecismos que escondem o Evangelho. A Igreja, nós, queremos aprender a oferecer-lhes o “pão dos anjos” e “o coração do irmão humano oferecido como alimento puro” (Orígenes, Hom. 7, in Lev.).

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