Bíblia e Eucaristia, Sacramentos de Cristo

Palavra e Eucaristia

Palavra e Eucaristia

Dos tesouros de exemplos extraiu-se esse curto diálogo entre Deus e um monge sábio e santo. Tendo oferecido à humanidade a Bíblia e a Eucaristia, o Senhor julgou que era um excesso e que ao ser humano bastaria uma das duas. Falou Deus ao ancião: “Bíblia e Eucaristia são demais para vocês. Dou-lhe a oportunidade de fazer uma escolha definitiva: vocês querem ficar com a Bíblia e com a Eucaristia?” O santo e sábio monge não hesitou em decidir: “Escolhemos a Bíblia, vossa Palavra!”

Admirado, Deus concluiu: “Respeito a escolha, mas não mudou nada: permanecerão com as duas”.

O velho santo sabia muito bem que, escolhendo a Bíblia, a Eucaristia vinha como conseqüência: não há Eucaristia sem a Palavra de Deus. É na Sagrada Escritura que se encontra o fundamento, o rito e a palavra da Santa Ceia. No Antigo Testamento, a Ceia é ação de graças pela libertação da escravidão do Egito; no Novo Testamento, a Ceia é ação de graças pela libertação do pecado e da morte a nós oferecida pelo novo Cordeiro, Jesus salvador.

Em cada celebração eucarística participamos de duas liturgias que constituem uma unidade: a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. A Palavra escutada conduz-nos à ação de graças na oferta do pão e do vinho que, pela força da Palavra, serão Corpo e Sangue do Senhor.

Quando não se leva na devida conta a importância insubstituível da Palavra de Deus na Missa, faz-se dessa um ato devocional, adoração à Hóstia separada da grande ação de graças da Igreja. Por outro lado, a Palavra de Deus sem a Eucaristia nos priva da riqueza celebrativa, da memória do Senhor em sua Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosas. Estaríamos deixando de lado a Palavra de Jesus aos seus: “Fazei isso em memória de mim”.

Nossa comunidades correm dois riscos com a “preferência” por uma ou pela outra. Escolhendo somente a Bíblia pode-se correr o risco de não a ler como história de salvação completada em Cristo, mas sim, como livro edificante que nos estimula a uma vida eticamente responsável: a Bíblia transforma-se em regras para a vida. Ela é mais: é celebração de toda a Vida divina que penetra a vida humana, divinizando-a. Não é um livro que nos dá o céu e livra do inferno: ela é mais, é a grande festa dos que celebram já agora, em comunidades libertas, a vida definitiva.

Escolhendo somente a Liturgia eucarística, poderemos mergulhar num devocionismo no qual se esquece que o Culto eucarístico é inseparável da Missa. A Missa seria reduzida a um Sacramento que nos oferece a Hóstia consagrada para a adoração. Tudo isso é válido, mas é infinitamente pouco: o Pão e Vinho consagrados são a Pessoa do Senhor que dá a vida por nós, que nos alimenta no caminho de peregrinos, que nos dá perseverança na espera de sua nova vida: Maranathá, Vem, Senhor Jesus!

Jesus Cristo está presente em toda a história bíblica e toda a Bíblia é Jesus Cristo: ele é a luz com que iluminamos cada livro da Escritura. Sem essa luz, o Antigo Testamento será o livro dos judeus e o Novo Testamento, o livro dos cristãos. A Igreja sempre teve o cuidado de preservar a unidade perfeita entre as duas Alianças. Uma necessita da outra. Santo Agostinho afirmou que, sem o Antigo Testamento, o Novo poderia ser acusado de ser uma invenção humana e Cristo um mestre fantástico, mas um mestre humano. Iluminando todas as Escrituras com Cristo Luz, elas nos revelarão, passo por passo, a História divina na história humana, a História da Salvação.

Essa leitura de uma História única gravada em 73 Livros nos livra de outro perigo: transformar a Escritura numa fonte de citações, picoteá-la em versículos especiais, abri-la magicamente para encontrar uma resposta determinada. O Papa João XXIII alertava a esse respeito quando disse a um grupo de biblistas: “A mim não agradam esses biblistas que fazem da Bíblia um salame e o talham em fatias”. O Papa Bom estava afirmando a unidade da Escritura: tudo nela se refere a Cristo, tudo nela é História da Salvação. A Eucaristia, brotando dessa fonte divina, dela é a celebração na comunidade.

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