«Vós sois o sal, vós sois a luz»

Após proclamar as Bem-aventuranças (Mt 5,1-11), dirigidas à comunidade dos discípulos, com o peso de sua autoridade Jesus declara e ordena: “Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor… para nada mais serve senão para ser lançado fora. Vós sois a luz do mundo. Não se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro” (cf. Mt, 5, 13-15).

Muitas vezes nós tomamos essa ordem declaratória “Vós sois” no sentido moral, como uma recomendação no esforço pessoal do discipulado. Jesus não permite essa interpretação. Para ele, a comunidade cristã é sal e é luz. Não deve ser: é! É conseqüência clara do mandamento do amor: “Se vos amardes mutuamente, conhecerão que sois meus discípulos” ( ).

A conclusão obrigatória é triste, para nós: se nossas comunidades não são sal e luz no meio da comunidade mundial, não servem para nada, a não se para serem jogadas fora. As Bem-aventuranças dão consistência ao relacionamento no interior da comunidade cristã e, deste modo, ela se torna sal e luz, tamanho é o contraste que evidencia numa sociedade secularista e hedonista.

Um grupo fraterno, justo, reconciliado, é o que o Senhor ordena que sejamos.

Meditando as vocações cristãs não podemos empobrecê-las como soma de unidades separadas: elas existem para a formação de comunidades sal e luz e não para a satisfação de anseios pessoais ou caminhos de seguranças que falsificam o Evangelho.

Nosso esforço é grande, o compromisso pastoral é intenso, mas, não correria o perigo de encerrar a comunidade cristã dentro de si mesma? Ou, em outras palavras, nosso trabalho pastoral não estaria vivendo o equívoco de fortalecer a própria instituição eclesial? As vocações (religiosas, leigas, presbiteral, matrimonial) são luz e sal ou são alavancas para reerguer estruturas que sempre ameaçam ruir?

Se não somos nem sal nem luz, o mundo não nos olha com indiferença: apenas não consegue ver-nos ou sentir-nos. Não existe procissão correndo, e não existe procissão dormindo. A Igreja sabe reagir aos estímulos históricos com um ritmo próprio; ela não requenta o Evangelho: ela sabe que o Evangelho é vida, é calor, é graça, é liberdade, é coragem, é martírio.

Ela, nas suas milhares de comunidades, sabe que deve encarnar o “vós sois o sal da terra”, “vós sois a luz do mundo” e isso exige muito mais do que marketing, emoção, milagres.

A história nutre sérias dúvidas a nosso respeito: ela conhece nosso caminho. Houve um tempo em que as elites nos manipulavam para obter favor e davam a impressão de crer em nós: esse tempo passou. Houve um tempo em que os pobres nos procuravam porque acreditavam em nossas ameaças de excomunhões e condenação final: esse tempo passou.

Alguns de nós procuramos as elites para dizer-lhes que o cristianismo não é rigoroso, que não exige um ato de fé radical, que acompanha a ciência: riem de nós, pois assim somos inúteis.

Alguns de nós procuramos os pobres para dizer-lhes que fazemos milagres, damos bênção fortíssimas, somos capazes de cura e libertação: a maioria ri de nós, pois outros o fazem melhor e com mais espetáculo.

A comunidade cristã cultiva a estima pela diferença: ela é sal e luz porque fala na Graça quando outros falam no poder da mente e do dinheiro; é sal e luz porque fala na vida eterna quando outros reduzem tudo ao aproveitar o seguro tempo presente; é sal e luz porque opta pela simplicidade num mundo que busca a ostentação; é sal e luz porque busca o serviço humilde e silencioso enquanto outros buscam ser servidos e vez por outra servem com estardalhaço.

Ela é sal e luz porque, num mundo continuamente ameaçado pela morte, anuncia a morte do pecado e proclama a ressurreição dos crentes em Cristo.

Não aceitemos ser inúteis. Proclamemos, sempre que ouvirmos declarações do triunfo do poder e do egoísmo, nossa grande notícia, a única notícia que é sempre única notícia: Cristo ressuscitou! A Vida venceu a morte!

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  1. #1 por Ademir Pereira em 13 de junho de 2009 - 13:20

    Foi bom saber que não devemos ser Sal e Luz, mas que somos.

    Shalom

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