SER AGRADÁVEL, A PEDAGOGIA DO ANTICRISTO

Jesus tentado no deserto – Willian Congdon

Jesus tentado no deserto – Willian Congdon

Lembro aqui duas notícias publicadas na imprensa: Prova de laço e missa campeira são destaques :“Na missa campeira para a Nossa Senhora Aparecida, os peões e prendas pediram a bênção da santa. Parados na frente do altar, em cima dos cavalos, eles solicitaram proteção para as competições” (DC, 2/5/2007, p. 24).

“Se Jesus Cristo fosse vivo, ele não diria aos fiéis que “o reino de Deus é como um tesouro escondido”, e sim “o reino de Deus é como ganhar sozinho na loto”. “É emoção.”  Confissão deve ser Reencontro, pois “Confissão é coisa de bandido. É uma dádiva poder escutar o que aflige o fiel e como ele batalha contra as tentações do pecado. As confidências são o feedback. Isso é pesquisa qualitativa”. (Afirmações do fundador da Associação Brasileira de Marketing Católico –ABMC (Isto É, 9 de  maio, 2007).

Esse tipo de anúncio ao gosto do freguês e de uma pastoral acomodadora, agradável a qualquer preço, faz lembrar o personagem Anticristo, do filósofo, teólogo e escritor russo Vladimir Soloviev (1853-1900), que faz o Anticristo se auto-anunciar servindo-se das palavras do próprio Jesus: “Eu vim em nome de meu Pai e vós não me acolhestes; virá um outro em seu próprio nome e vós o acolhereis: sou eu”. E depois conclui: “Para ser acolhido é necessário ser agradável”. O Anticristo de Soloviev encontra solução para tudo: ecumenismo, justiça, bem-estar, salvação, diálogo religioso, tudo se resolve de modo agradável, evitando dores, esforços longos e oferta da inteligência ao Espírito. Poucos resistiram ao seu fascínio irresistível e foram julgados fanáticos: enfim, o mundo tem jeito, e sem sacrifícios.

Bem diferentes as palavras de Bento XVI no Brasil e que causaram alvoroço, pois o Papa poderia estar afastando fiéis com sua pregação exigente dos valores evangélicos. Ao defender a fa­mília como célula-mãe da sociedade, a vida em todos os estágios, Bento XVI afirma que “a Igreja quer ape­nas indicar os valores morais de cada si­tuação e formar os cidadãos para que pos­sam decidir consciente e livremente”. Não há imposição, pois a consciência é o tribunal indevassável de cada pessoa, o que não exclui que seja formada corretamente e, no caso dos cristãos, segundo a Palavra de Deus.

Bento XVI, teólogo refinado, não tem saudades do passado. Ele quer uma Igreja consciente, cristãos bem formados em todos os níveis da sociedade civil. No discurso de abertura da V Conferência de Aparecida lamentou a precariedade de líderes católicos nos meios científicos e políticos. Ele quer dizer a todos: trabalhem mais, sejam mais e melhores pastores e o rebanho permanecerá unido.

Ao mesmo tempo, não tem saudades dos números, da grande estatística; o que mede a força do cristianismo é a intensidade de vida, de encontro com o Senhor, de cada pessoa e de cada comunidade. Recorde-se aqui uma palavra sua quando ainda Cardeal, numa entrevista: ”A Igreja dimi­nuirá de tamanho. Mas dessa provação sairá uma Igreja que terá extraído uma grande força do processo de simplifica­ção que atravessou, da capacidade reno­vada de olhar para dentro de si. Porque os habitantes de um mundo rigorosamente planificado se sentirão indizivelmente sós. Descobrirão, então, a pequena co­munidade de fiéis como algo completa­mente novo. Como uma esperança que lhes cabe, como uma resposta que sem­pre procuraram secretamente” (O Sal da Terra).

Papa Ratzinger anuncia um cristianismo sério, pois “o cristianismo é obra de grandeza”, nas palavras Inácio de Antioquia. Quanto menos o mundo quiser ouvir falar de Cristo, mais dele estará precisando. Cristo, porém, não veio para facilitar a vida, mas para torná-la divina, o que exige contínuo combate espiritual e não o espetáculo religioso.

Na sociedade de consumo, hedonista, ser agradável é tudo o que se espera. Vale a pena simplificar ou falsear a mensagem do Crucificado descendo ao mesmo chão?

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