O ESPÍRITO SANTO, UM TIPO INTRANQÜILO

Santos Loucos - Matisse

Santos Loucos – Matisse

A Companhia de Jesus, os Jesuítas, em 1965 congregava 36 mil padres e religiosos e hoje, com muito mais frentes de trabalho apostólico, 20 mil. O Superior Geral, Pe. Kolvenbach, não se deixa levar pelo pessimismo: “Faz parte de toda obra eclesial estar em crise permanente, pois deve estar sempre à escuta do Espírito Santo, que não é ‘um tipo tranqüilo’”.

Se fecharmos o ouvido ao Espírito, a crise será confundida com derrota e a ausência de crise, sinal de caminho certo. Podemos estar contemplando a paz do pântano, com sua superfície luzente e serena, mas ocultando podridão, vermes, morte. Somente um cristianismo que deixa ao Espírito todo o espaço necessário será capaz de revelar e realizar a vocação cristã, que é sempre criativa

Os grande homens e mulheres tocados pela graça têm essa característica: vêm a ação do Espírito onde muitos preferem ver crise. Os pessimistas sentem-se recompensados quando percebem igrejas cheias e acham que “Deus está vencendo”, mas se esquecem de que a maioria busca apenas uma “genérica experiência espiritual”, “sentir Jesus”, enquanto que o Espírito propõe algo muito exigente e instigante: um “caminho de fé”.

No Pentecostes (At 2, 1-13), os desavisados julgaram que os Apóstolos tinham ingerido um robusto pileque de vinho doce, tão felizes e corajosos estavam. De lá para cá se acha que não está bem do juízo aquele que é arrastado pela força do Espírito Santo: Paulo foi considerado traidor de seu povo, os eremitas do deserto gente sem eira nem beira, Francisco de Assis o maluco de Cristo, Filipe Néri o esquisito de Roma, Teresa d’Ávila e João da Cruz os neuróticos do Carmelo, Madre Teresa uma imprudente que mergulha nas incertezas das ruas de Calcutá, João Paulo II um mau exemplo perdoando Ali Agca, mulheres generosas que aceitam gerar fetos portadores de deficiência acusadas de mal informadas, Miguelângelo um sonâmbulo olhando um bloco de mármore para dele libertar a Pietà. E assim por diante, numerosíssimo exército de “loucos” impedindo que o mundo seja engolido pela bestialidade do pecado.

Achamos que a soma de nossas ações orienta a vida da Igreja, como se a Igreja fosse uma soma de boas ações e intenções. É o Espírito Santo que conduz a Igreja, a cada instante, em cada fiel, em todos os fiéis. O Espírito Santo não está submetido à sabedoria de nossas tradições: ele é um tipo inquieto, continua a plantar onde outros desistem. É Pessoa intranqüila, pois uma de suas missões é esculpir em nós a imagem do Pai, criativo “poeta do céu e da terra”: o Espírito também é Criador e impele a humanidade inteira a gestos criativos, imprevistos, que transfiguram o mundo. Ele “faz novas todas as coisas” (Apoc 21,5): é fermento de heroísmo, beleza, criatividade, generosidade, santidade.

A partir de Pentecostes rios de fogo brotados do peito divino invadem a terra, o cosmos, a humanidade. Nada permanece intacto por onde passam suas chamas: tudo é renovado, de modo inatendível, sempre original. Quando queremos programar a ação de Deus na Igreja acontece a mesmice, a repetição cansativa, o “compromisso” enjoativo. Nós dizemos que o Espírito age na comunidade: é verdade, sim, mas esquecemos que o Espírito Santo espalhou suas chamas de fogo sobre todos (comunidade) e sobre cada um deles (originalidade da pessoa) (At 2,3). Com seu exército de bilhões de enamorados, o Espírito renova(rá) a face da terra. Ninguém o prende!

Sonhemos como o russo Scriabin (1872-1915): era um alucinado músico e pianista que desejava compor um “mistério” do Espírito Santo, cujos últimos acordes fossem capazes de incendiar o mundo. Ele sugeriu o acorde: do-fa-si bemol-mi bemol. Queria que fosse o som da eternidade. Repetimos: são esse “loucos” do Espírito que salvam o mundo.

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