TUDO ESTÁ CONSUMADO! TUDO COMEÇA!

007E Jesus tomou o vinagre e disse: “Tudo está consumado”. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30). Meditando esse momento extremo da vida de Jesus, o romancista grego Nikos Katzanzakis, em seu A Última tentação de Cristo, deduz: “Tudo começa”. De fato, a história mostra que aquele momento de total derrota deu início a um processo religioso e humano irrefreável, a tal ponto que a humanidade pode amar ou odiar a Cristo, mas não ser-lhe indiferente. O homem humilhado e derrotado na cruz revolucionou as certezas e atitudes religiosas humanas: o verbo subir foi substituído pelo descer, o ser servido pelo servir, o acumular pelo repartir, a palavra vingança ganha seus antídoto no amor ao inimigo, os menores passam a ser os maiores, e o trono de nosso coração e ação deve ser ocupado pelo mais humilde e desprotegido sofredor a cujos pés reis e rainhas se prostram.

O homem cuja última bebida foi o vinagre numa esponja, que inclina a cabeça para olhar pela última vez aqueles que o condenaram ou amaram, revoluciona a imagem religiosa de Deus: é um Deus compassivo que olha o mundo, um Deus derrotado pelo amor e, por isso, incapaz de fazer justiça com as próprias mãos, pois o amor o torna frágil diante daqueles que crucificaram a mataram seu Filho. O Homem crucificado revolucionou o culto: seus seguidores não são chamados a agradar a Deus e sim, aceitarem o tudo que Deus faz para agradá-los. Os 10 Mandamentos da Antiga lei são completados por oito Bem-aventuranças, promessas de felicidade que fortalecem os fracos e enfraquecem os fortes, pelo amor.

No topo da cruz estava escrito “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”, um título desconfortável para quem iniciava o reinado entre dois ladrões, contemplado por algumas mulheres e um discípulo, ridicularizado por tantos inimigos e ingratos. É um paradoxo: o título era demasiado para um derrotado, mas reduzido para esse homem que veio dividir a história. Tudo começa! Ele desperta tantos sentimentos que um escritor moderno, o Henry Miller (1890-1980) do Trópico do Câncer, mandava gravar um cruz na sola de seus sapatos para continuamente pisotear o Crucificado e sua religião. Por que o grande romancista tinha essa preocupação? Porque o “Tudo começa” ressoa sempre e é um incômodo impertinente para quem nada quer com ele.

Aquela cabeça inclinada tirou a paz dos bem pensantes, tirou a paz dos ateus devotos, dos religiosos ateizados, desinstalou os sábios cujo grande projeto é negar qualquer transcendência. Se tudo é ilusão, por que essa preocupação? Para medirem a existência do Crucificado usam o rigor de dias, meses e anos: são cientistas! Já, para chutarem do mundo a presença divina, trabalham tranqüilamente com datas que se dividem em dogmáticos bilhões de anos.

Realmente, no alto do Monte Calvário o “Tudo está consumado” é perfeito: todos os passos foram percorridos para que tudo comece. Tudo começa num cruz, numa sepultura e explode num sepulcro vazio. Pela primeira vez na história humana ressoa a palavra “Ressuscitou!”. Palavra contagiante, imantada, que conduz a humanidade do nada ao tudo, do desespero à esperança, da fé à visão. Tudo começa porque o Morto ressuscitou, foi contemplado pelos seus e o mundo não consegue ter vida sem ele.

O grande escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), judeu, assim respondeu ao amigo Gustav Janouch que lhe perguntava a respeito de Cristo: “Ele é um abismo de luz. É melhor ter os olhos fechados para não mergulhar nele”. Em nossa geral mediocridade religiosa, que transforma o Cristo num milagreiro ou objeto ritual, é bom ter muito cuidado: se abrirmos os olhos mergulharemos em seu abismo de luz, e seremos luz. Se não nos prevenirmos em tempo, Cristo nos seduzirá e não conseguiremos mais viver sem seu amor.

, , ,

%d blogueiros gostam disto: