NÃO MEXAM COM AQUELE HOMEM CRUCIFICADO

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O juiz gaúcho Roberto Arriada Lorea, defensor de causas polêmicas, tornou-se conhecido em setembro de 2005 ao decretar a retirada do Crucifixo da sala de audiência de um tribunal de Porto Alegre, pois, afirmou em sua peroração, a presença da Cruz fere a separação entre a Igreja e o Estado. Ele advoga a retirada dos Crucifixos de todos os espaços públicos.

O texto e o contexto fazem recordar a frase lapidar de uma escritora italiana, Natália Ginzburg (1916-1991), judia e atéia, publicada no jornal do Partido Comunista Unità, em 1988, por ocasião de igual conflito na Itália: “Não tirem aquela cruz. Ele está lá, mudo e silencioso. Sempre esteve. É o sinal da dor humana, da solidão da morte. Não conheço outros sinais que com tanta força ofereçam o sentido do nosso destino!”.

Não é preciso ter fé para se comover com a presença daquele Homem crucificado: silencioso, Ele continua lá, nas paredes de igrejas, casas, escolas, escritórios, tribunais, bancos, lojas. Mudo e dolorido, poucas vezes nos damos conta de sua presença: poucos de nós respondemos ao lamento “povo meu, que te fiz eu, ou em que te contristei?”. Na vergonha de sua nudez não há Maria nem João para dele se compadecerem; somente o silêncio da indiferença de nossas salas e palácios. A vergonha de sua nudez humilhada contrasta com a nudez transformada em lucro, orgia, bacanal.

Ele está ali, diante de nós, fazendo lembrar milhares de corpos abandonados, famintos esquálidos. Sua presença comove mães de crianças mortas, mães de jovens assassinados, mães à beira da estrada da vida pedindo uma palavra de compaixão. Seu corpo dilacerado reflete o corpo do menino João Hélio Fernandes Vieites (7/2/2007) amarrado na cruz de um carro roubado e arrastado por quatro quarteirões, num Calvário que o deixou sem cabeça, sem joelhos, sem vida.

O Homem de Nazaré, representado em todas as formas artísticas e humanas, é testemunha solitária e solidária da dor universal que não conhece povo ou nação. Diferentemente do Calvário, Ele está sozinho em nossas paredes. Não bastasse sua dor, há quem o olhe com o ódio dos que não suportam serem desinstalados pela dor alheia, o ódio dos sábios deste mundo que o percebem como incômodo insuportável para a inteligência liberta de qualquer fé, mas que não encontra paz.

É melhor não procurar tirar esse Homem da cruz, preferindo uma cruz vazada que afirme que ele não está mais ali. Ele está! A cruz sem Ele não tem significado, porque é matéria sem a forma humana da dor. Talvez seja mais fácil descê-lo logo da cruz, porque assim não seremos desafiados por tantas dores crucificadas de nosso mundo. A cruz sem o Homem e o Homem sem a cruz aliviam a tensão de nosso conforto: tudo está resolvido, pois a morte foi vencida. É verdade, mas deixemos o Crucificado com sua Cruz, sua única companhia na solidão arrasadora da dor.

Essa mesma Cruz, que em nossas igrejas é adorno e não sinal de sofrimento, é incômodo para uma religiosidade que busca fugir da redenção pela dor, que prefere não mais escutar o “carregue sua cruz e me siga”. Ele já carregou a cruz, e basta, pensamos nós que transformamos o Cristianismo em moral e ética, em bom comportamento sem a necessidade da dor.

Não mexamos com esse Homem crucificado. Sem Ele não há mais fé cristã, pois nos contentamos com a ilusão de salvar o mundo com a transformação do Evangelho crucificado em evangelho de bolso, de baixo preço, descartável. O Homem crucificado é desafio para os não crentes, é desafio para os crentes. Aqueles são obrigados a conviver com a presença de um Homem que perpetua a morte solitária enquanto não gera vida solidária; esses são convidados a responder ao porquê da fuga frente àquilo que na fé exige a companhia da dor, mesmo sabendo que sem dor não há redenção.

Não mexamos com aquele Homem crucificado: é o Filho de Deus testemunhando de forma desolada o Amor que não é amado. Pobres de nós, com Cristo sem a Cruz; pobres de nós, com a Cruz sem Cristo.

Pe. José Artulino Besen

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