SANTO NÃO É SHOPPING CENTER

No dia 16 de dezembro próximo passado, o Papa Bento XVI reconheceu um milagre do Beato Frei Galvão e o martírio  dos Servos de Deus Pe. Manoel Gomez Gonzalez e do coroinha de 15 anos Adílio Daronch em Feijão Miúdo, RS (1924); da Serva de Deus, a catarinense Albertina Berckenbrock aos 12 anos em São Luís, Imaruí, SC (1931); e da Serva de Deus Irmã Lindinalva Justo de Oliveira em Salvador da Bahia (1993).

O Pe. Manoel era espanhol. Os outros são brasileiros. Os mártires do Rio Grande do Sul foram vítimas da violência política na guerra entre chimangos e maragatos; Albertina e Irmã Lindinalva foram mártires em defesa da virgindade, da sacralidade do corpo templo do Espírito Santo. Irmã Lindinalva, vicentina, recebeu 44 facadas de um asilado do qual cuidava e queria seduzi-la. Recebeu as facadas após celebrar a Via Sacra, numa sexta-feira santa.

O reconhecimento do martírio já os torna bem-aventurados. A Celebração oficial acontecerá durante o ano. Com Albertina, nosso Estado terá a segunda beatificação, depois da primeira, de Santa Paulina.

A Igreja coloca os Santos como nossos “modelos e intercessores”. Modelos e intercessores no caminho da vida cristã. Gostamos muito dos Santos: um pouco menos apreciamos imitá-los. Conta a história que os frades franciscanos estavam muito felizes porque alguns deles tinham merecido o martírio no Marrocos. São Francisco não perdeu tempo: proibiu que se cantasse o martírio dos frades porque isso era fácil e se esqueciam de serem eles mesmos mártires.

Os Santos não são Shopping. O Prefeito de Guaratinguetá, terra do Beato Frei Galvão, espera que a canonização dê um impulso à economia da região. Pretende criar um “corredor espiritual” que fomente o turismo e os negócios. Nova Trento torcia para que Santa Paulina desse um impulso à economia do Município, promovendo o turismo religioso, a hotelaria, degustação de queijos e vinhos da região. Em São Luís do Imaruí também se espera que Albertina Berckenbrock estimule as peregrinações, a construção de estradas e santuário. Em Florianópolis, a Fundação Catarinense de Cultura-FCC tombou como bem imaterial a Procissão do Senhor dos Passos: agora, quem participa da procissão está sendo personagem de um espetáculo tombado e que não pode ser alterado. A mudança de roteiro deve ser submetida à FCC. Falta tombar a procissão de Corpus Christi, a rendeira, o peixe com pirão, pois a Bahia já tombou o acarajé.

Um horror! Uma vergonha servir-se dos Santos para propósitos comerciais ou culturais. Isso é simonia, o pior dos pecados: enriquecer às custas da graça divina concedida aos Santos. A própria expressão “turismo religioso” é de uma infelicidade total. Na sua sabedoria, a Igreja sempre se serve de duas palavras para a visita a lugares sagrados: romaria e peregrinação. Turismo é turismo, peregrinação é peregrinação. O turista até reza nos Santuários, mas sua finalidade é turismo. Já o peregrino reza e vai para rezar, aceitando sacrifícios e privações para realizar seu caminho cristão.

Certamente assistiremos logo ao deprimente espetáculo da valorização das terras no entorno do local do martírio, o mesmo que aconteceu em Vígolo. Muita gente querendo um pedaço de terra para estabelecer sua “banca de câmbio e comércio de pombos”, como no templo de Jerusalém. Vão ser comprados a peso de outro os terrenos onde nossos mártires derramaram seu sangue pela pureza e pela paz, por causa da fé. O sangue dos mártires fecunda a terra para o nascimento de novos mártires e não de negócios.

Outro problema sério é transformar os Mártires e Santos em milagreiros, medi-los pelo número de graças. As graças podem e devem ser pedidas. A maior graça, porém, é pedirmos o mesmo heroísmo dos que deram a vida para testemunhar seu amor pelo Senhor e pelo Evangelho. Um Hino litúrgico fala em “Sagrado Comércio”: ele se refere a Deus que assume nossa humanidade em Cristo  e a nós que assumimos a divindade também em Cristo. O Brasil precisa de Santos: cada um de nós é o candidato obrigatório ao posto. A vocação cristã é a vocação à santidade.

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