NO NATAL O DIVINO PENETRA TODA A CRIAÇÃO

«Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens!» (Lc 2,14).

Natividade do Senhor

Natividade do Senhor

Pela primeira vez na história, o céu vem à terra para trazer uma notícia humana e divina. São os anjos que vêm anunciar aos pastores que na manjedoura jazia um menino, o Cristo Senhor. Os repórteres celestes fazem reportagem na terra! Tem início uma comunhão misteriosa, cuja finalidade é reiniciar o diálogo entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, interrompido pelo pecado. O ser humano tem agora a possibilidade real de superar o limite do tempo e do espaço e entrar na vida divina, onde nada tem fim, onde tudo é participação-comunhão no eterno. Agora o céu é o templo dos homens e a terra, o templo de Deus.

“O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória” (Jo 1,1-14).

O mistério do Natal envolve toda a criação num novo processo: a instauração do reino de Deus, toda a riqueza da criação ser penetrada pelo divino. A encarnação do Filho concretiza uma nova Aliança, a Igreja, da qual ele é a Cabeça: é a história da salvação cristã.

Em momentos de dúvida podemos ser vítimas do pessimismo: Cristo veio, tanto já se trabalhou, tantos mártires e santos, e o reino não caminha! O mundo antigo parece vencer a batalha. Mas, é de Deus a palavra verdadeira e final. Cristo é e será o vencedor. Um dos nossos problemas é achar que o arco da história está se completando, que os tempos estão terminando.

É bom citar aqui João XXIII, o Papa Bom: “Quem conhece a história sabe que lentamente, lentamente a nossa Igreja se purificou. Daremos outros passos. Temos ainda muitos séculos diante de nós”. E em outras palavras, a Igreja ainda é uma criança. Sabe bastante e acaba achando que já sabe o suficiente. Mas precisa aprender a viver, a testemunhar a presença do Espírito. Dois mil anos são apenas o começo. Criamos estruturas para exaltar o triunfo de Cristo, e ficamos preocupados em alterá-las, suprimi-las, para que resplandeça a glória do Senhor no ser vivo.

Os cristãos sabem que o amor é o centro da mensagem do Menino: mas jogam bombas para destruir o Afeganistão. Sabemos que a criação é divina: caprichamos em destruí-la. Todos somos irmãos: na prática, muito pouco. Estamos aprendendo. Num mundo de morte, somente a Igreja tem uma palavra de vida definitiva: precisa centrar-se nessa missão.

Devemos ser modestos em nossa arte pastoral. Afinal, o Espírito paira sobre o universo e inspira a criatividade trinitária, é cheio de novidades. Deus é Mãe: as mães são fecundas por definição e vivem preparando surpresas para seus filhos. Estejamos atentos a essa surpresas divinas. A evangelização apenas começou.

A Palavra do Papa:

Maria Santíssima Mãe de Deus e Recitação do «Te Deum»

No final de um ano, que para a Igreja e para o mundo foi riquíssimo de acontecimentos, ao lembrar do mandamento do Apóstolo: “Caminhai… firmes na fé… transbordando em ações de graças” (Cl 2, 6-7), esta noite encontramo-nos juntos para elevar um hino de agradecimento a Deus, Senhor do tempo e da história. Sim, é nosso dever, mais do que uma necessidade do coração, louvar e agradecer Àquele que, eterno, nos acompanha no tempo sem jamais nos abandonar e vigia sempre sobre a humanidade com a fidelidade do seu amor misericordioso.

Portanto, podemos dizer que a Igreja vive para louvar e agradecer a Deus. Esta mesma “ação de graças”, ao longo dos séculos, é testemunha fiel de um amor que não morre, de um amor que envolve os homens de qualquer raça e cultura, disseminando de modo fecundo princípios de verdadeira vida. Como recorda o Concílio Vaticano II, “a Igreja simultaneamente ora e trabalha para que toda a humanidade se transforme em povo de Deus, Corpo do Senhor e templo do Espírito Santo e, em Cristo, cabeça de todos, se dê ao Pai e Criador de todas as coisas toda a honra e toda a glória” (LG, 17). Sustentada pelo Espírito Santo, ela “prossegue a sua peregrinação entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus (Santo Agostinho, De Civitate Dei, XVIII, 51, 2), haurindo força da ajuda do Senhor. Deste modo, com paciência e com amor, supera “as aflições e dificuldades internas e externas”, e revela “fielmente ao mundo, mesmo que sob a sombra dos sinais, o mistério do seu Senhor, até ao dia em que finalmente resplandecerá na plenitude da luz” (LG, 8). A Igreja vive de Cristo e com Cristo. Ele oferece-lhe o seu amor esponsal, guiando-a ao longo dos séculos; e ela, com a plenitude dos seus dons, acompanha o caminho do homem, para que aqueles que acolhem Cristo tenham vida e a tenham em abundância. […]

No início desta celebração, iluminados pela Palavra de Deus, cantamos juntos com fé o “Te Deum”. São muitos os motivos que tornam intensa a nossa ação de graças, fazendo dela uma oração coral. Enquanto consideramos os múltiplos acontecimentos que assinalaram o decurso dos meses neste ano que se está a concluir, quero lembrar de modo especial quem se encontra em dificuldade: as pessoas mais pobres e abandonadas, quantos perderam a esperança num fundado sentido da própria existência, ou são vítimas involuntárias de interesses egoístas, sem que se lhes peça a adesão ou opinião. Fazendo nossos os seus sofrimentos, confiemos-las a Deus, que sabe dirigir todas as coisas para o bem; a Ele entreguemos a nossa aspiração para que cada pessoa seja acolhida na própria dignidade de filho de Deus. Ao Senhor da vida peçamos para aliviar com a sua graça as penas provocadas pelo mal e para continuar a dar vigor à nossa existência terrena, doando-nos o Pão e o Vinho da salvação, para sustentar o nosso caminho rumo à pátria do Céu.

Ao despedirmo-nos do ano que se encerra e encaminharmo-nos para o novo, a liturgia destas primeiras Vésperas introduz-nos na festa de Maria, Mãe de Deus, Theotókos. A oito dias do nascimento de Jesus, celebramos Aquela que “quando chegou a plenitude do tempo” (Gl 4, 4) foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador. Mãe é quem dá a vida, mas também quem ajuda e ensina a viver. Maria é Mãe, Mãe de Jesus, a quem deu o seu sangue, o seu corpo. E é ela que nos apresenta o Verbo eterno do Pai, que veio habitar no meio de nós. Peçamos a Maria que interceda por nós. A sua materna proteção nos acompanhe hoje e sempre, para que Cristo nos acolha um dia na sua glória, na assembléia dos Santos: Aeterna fac cum sanctis tuis in gloria numerari. Amém!

(Homilia do PAPA BENTO XVI, Sábado, 31 de Dezembro de 2005)

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