APÓS TANTOS NATAIS…

Diante do mistério do Filho eterno de Deus que se encarna no seio de Maria e vem habitar no meio de nós, diante de Deus que decide fazer a experiência da vida humana na Palestina, por causa do ser humano e do mundo, só nos resta a atitude da adoração e do louvor. Na gruta de Belém, a humanidade se defronta com uma realidade inimaginável e impenetrável a qualquer reflexão humana: o Menino ladeado por Maria, José, os pastores e animais, na sua simplicidade e pobreza oculta uma pessoa divina. Dois mil anos são muito pouco para meditar este mistério do amor de Deus e são muito pouco para colocar em ação a graça irradiada a partir de Belém. O acontecimento em Belém de Judá dividiu a história e se insere no âmbito do eterno: não é mais possível uma compreensão real da história e do cosmos sem o evento Cristo. Em Belém nasce e desemboca o sentido da história.

Podemos e devemos ir adiante: Jesus é o sentido último e único da história cósmica e humana. Sem ele não há história, apenas ruínas de uma sucessão de fatos que surgem, parecem definitivos, e se convertem em lixo. Com ele, “o povo que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9, 1). Sem Jesus não há fonte donde jorre o sentido da existência e se cai perigosamente naquilo que é o orgulho de uma cultura sem luz: mergulhar numa noite em que tudo é igualmente bom e tudo é igualmente indiferente. Ele é uma resposta/proposta para o sentido de nossa existência, e permite discernir entre guerra e paz, invasão e libertação, carrasco e vítima, homem e mulher, lei e violência, vitória e derrota, razão e loucura, mestre e discípulo, fé e superstição, arte e charlatanismo, ciência e ignorância. Cristo Luz é Cristo Vida, é Cristo Verdade e é Cristo Caminho (cf. Jo 14,6). Tudo isso porque sua vida nos revela e descreve a vida de Deus Pai.

Sem ele acabaremos seduzidos pela proposta do poeta francês Baudelaire, ícone da cultura moderna: teremos a escolha de sermos ou amantes das prostitutas ou amante das nuvens. Em outras palavras: escolheremos a satisfação imediata em tudo (e tudo se torna descartável) ou nos perderemos na imaginação ociosa (e nos tornamos descartáveis). É a tragédia em que tudo é igual, dependendo do uso que dele fizermos, e tudo perde o valor, inclusive a existência. O prazer a qualquer custo e as drogas alienantes são divindades no altar desta escolha de vida.

O Menino que nasce em Belém de Judá nos enche de alegria e ensina a cantar: “Ó Senhor, vós sois meu Pai, sois meu Deus, sois meu Rochedo onde encontro a salvação!” (Sl 88,27). E a fé no Menino Deus nos conduz a pôr as graças em ação. Além do desafio da salvação humana, intrínseco à fé cristã, hoje nos defrontamos com um outro: o da salvação da criação. Após séculos de devastações, agressões ao meio-ambiente, de consumismo e desperdício acelerados nas últimas décadas, o mundo já era. É preciso correr atrás do prejuízo para que o ser humano salvo tenha onde morar e viver. Para um cristão isso é essencial, pois ele professa a fé no Deus criador. Por um engano, com raízes filosóficas e religiosas, o ser humano confundiu seu serviço à criação com o domínio da criação. Deu no que deu, pois os recursos naturais não são inesgotáveis. É impressionante como agora estamos vendo os frutos de nossa blasfêmia contra o Criador: rios e lagos poluídos, matas devastadas, buraco na camada de ozônio, espécies em extinção e os lixões – essas cloacas da vida moderna – desafiando a administração pública. A natureza é generosa e oferece uma oportunidade a cada um de nós, e para os cristãos isso é compromisso. A teologia não pode estar separada da ecologia. A natureza é a primeira tenda de Deus entre nós.

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