O HOMEM, UM APÊNDICE DO BARULHO

Composição - Tancredi

O Senhor disse a Elias: ‘Sai e conserva-te em cima do monte na presença do Senhor: ele vai passar’. Nesse momento passou diante do Senhor um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos; mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremeu; mas o Senhor não estava no tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave” (1Re 19, 11-12). Era o Senhor!

Na sociedade que privilegia o espetáculo, a emoção, a passagem do Senhor teria sido decepcionante: nem conseguiu chamar a atenção. Mas o Senhor chegou na brisa suave e o contemplativo Elias percebeu-o.

A Liturgia cristã que coloca um recém-nascido numa gruta em Belém como centro da história e inicia o ano celebrando a Mãe de Deus e o Dia Mundial da Paz vai na contramão da história e, apesar disso, oferece a única possibilidade de construir uma história humana calcada na vida Divina, silêncio eterno porque amor sem fim.

Ou nós mergulhamos no silêncio cuja palavra não pronunciada é o amor, ou nos afogamos no barulho onde o amor e a vida são substituídos pelas relações cujo fundamento é o interesse, a fuga e o consumo.

Somente é possível a edificação de uma personalidade humana e espiritual robusta quando se é capaz de fazer silêncio: ele provoca o discernimento entre o que é bom e o que é mal, entre o necessário e o supérfluo, entre a generosidade e o egoísmo. Requer aceitar o combate contra muitos inimigos que sub-repticiamente nos penetram através do barulho: a fabricação de falsas necessidades, falsas seguranças, amizades fingidas, festas com o máximo de decibéis para que nem falemos nem ouçamos quem está à nossa frente. O barulho provoca a solidão, pois substitui o ouvido e o olhar atentos à vida de nosso próximo.

Liberdade e silêncio

O grande combate do amadurecimento humano e cristão tem nosso coração como campo de batalha. É lá dentro, nos abismos de nossa interioridade, que se travam as guerras verdadeiras contra tudo o que nos afasta de Deus, dos outros, de nós mesmos. É no silêncio do coração, após a derrota de todos os ruídos que querem moer nossos sentimentos, que se estabelecem os grandes encontros amorosos.

No silêncio de nossa interioridade contemplamos a bondade do amor divino e dos outros, e sentimos a felicidade de fixar o olhar na doçura dos encontros que se produzem e que dão sustento à nossa existência.

Os baixos preços dos produtos eletrônicos que geram milhões de sons e imagens são sedutores: parecem nos libertar do incômodo de ouvir o ruído do trânsito, é verdade, mas também nos isolam do canto dos pássaros, da música sutil entoada pela natureza, e da necessidade de escutar a fala do outro. Andamos pelas ruas com ouvidos tamponados por walkman e celulares, e temos a sensação de liberdade frente a qualquer incômodo: não é isso verdadeiro, porque nossa liberdade continuará gritando para ser ouvida. Acabamos mergulhando num silêncio filho da solidão estéril.

O barulho que enche nossas casas e nossas vidas impossibilita escutar os sentimentos dos que no cercam e que são silenciosos. Só no silêncio há revelação de vidas e de intimidade.

Deus nos conduz ao deserto para falar-nos

Assim diz o Senhor: ‘Eu a conduzirei levando-a à solidão, onde lhe falarei ao coração’” (Os 2, 15-16).

O deserto é o local do encontro: nele o Povo conheceu a Aliança; nele João Batista anunciou o Salvador; nele Jesus enfrentou Satanás; nele os cristãos dos primeiros séculos (e de hoje) buscaram a liberdade de escutar a Deus; nele Charles de Foucauld enfrentou a sedução do retorno ao passado. Nele, no deserto do silêncio, está a possibilidade de fugirmos da esterilidade de uma vida espiritual feita de ruídos, sentimentalismos e palavrório estéril, gritado por pregadores sem vida interior para ouvintes que fogem da vida interior. E todos saem satisfeitos, porque pensam estar livres do “inimigo”. Enganam-se: o “inimigo” arma sua tenda na próxima esquina e de barulho em barulho os privará da experiência amorosa do Senhor.

Se o homem é um apêndice do barulho, não é sujeito de uma história pessoal. Se o barulho é um apêndice da vida humana, pode e deve ser combatido para que atinjamos a riqueza da intimidade.

No barulho não há liberdade. E a liberdade nos liberta para a escuta de todas as vozes da criação, vozes sutis, captadas somente por quem vive com atenção a construção de sua existência. Nas vozes da criação discerniremos a voz de Deus.

O Senhor nos fala ao coração. Ele nos rapta para conduzir-nos ao deserto, a fim de que escutemos sua confissão de amor por nós. O Cristo frágil de Belém e fragilizado na cruz de Jerusalém nos comunica a força em seu silêncio de amor.

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